O prepúcio do Führer


| de: | Gabriel | ||
| para: | Vinícius da Cunha | ||
| data: | 17 de outubro de 2008 10:23 | ||
| assunto: | Pois é, não deu | ||
Não deu pra entender muito o fim dos Los Hermanos, agora. Na verdade até dá, “casamento é como um tubarão”, já dizia o mestre, mas depois do show de ontem, fui ao show do Marcelo Camelo e saí feliz, curioso e intrigado com o fim da banda, algo que para mim já era assunto encerrado.
Saí feliz porque muito do Los estava presente no show. Não me refiro ao repertório (que incluiu umas cinco, seis ou sete músicas da banda), mas toda atmosfera que os envolve. Pra começar, o público era do Los. Todo mundo com camisetas por cima de camisas, ou debaixo de blusas velhas, jaquetinhas e até as mulheres tinham barba. Tinha o Camelo, evidentemente, mas o que me chamou mais a atenção foi a banda Hurtmold, que o acompanha. Não os conhecia, nunca tinha escutado os caras. Muito bons, mas, à exceção da presença de um percussionista, eles são os Los Hermanos tocando. Se não são, é como se o Camelo dissesse: "toquem assim, ó".
O show, assim como o disco Sou, me pareceu a evolução dos Los Hermanos. É como se fosse o próximo passo que a banda daria depois que tomou do Bloco pro Ventura, do Ventura pro 4 e o que seria do 4 pro "Somos(?)". Isto foi o que, de certa forma, me deixou feliz. Se eu fechasse os olhos e ignorasse a existência da voz do Amarante, poderia acreditar que estava num show deles.
A curiosidade fica por conta do Little Joy, a nova banda do Amarante. Tenho a impressão que por ser mais inquieto que o Camelo, este sim, fará algo bem diferente. Porque senão não teria razão para o Los Hermanos acabar, a não ser o fato que todo carnaval tem seu fim.
Sobre o show, mais especificamente:
Gostei demais. É verdade que começou dando medo. A introdução foi com Passeando, mas dá pra dizer que o show começou mesmo com Téo e a Gaivota. Só que esta virou uma punheta do Camelo. Pausas gigantescas dentro da música, trechos experimentais com distorsões tão excessivas que harmonia parecia se chamar barulho. Era impossível para mim ter prazer estético com aquilo. Só ele parecia curtir e nós pensávamos: meodeos! Tudo bem, é direito do artista, mas, sei lá, acho que a gente tem que pensar no público que nos vê, nos ouve, nos lê, enfim. Daí acalmou. Fez o set list em cima da ordem do disco, só invertendo Doce Solidão com Janta, que, aliás, a partir de entã o o público relaxou e aí foi só alegrias. O mais legal do show: ele estava nitidamente emocionado e contagiava a todos com isso .
O biz, rapaz, merece um parágrafo:
Parágrafo: Não funcionou. Acho que ele escolheu a música errada pra terminar a primeira parte do show. Ficou tão clara aquela coisa de "agora eu saio, mas volto" que o público não insistiu muito. Saiu em quase silêncio e voltou da mesma forma, meio contrangedora. A verdade é que não gosto da cultura desse tipo de biz. Todo show tem. Todo mundo sabe que o cara, ou a banda, vai voltar. Pra que esse acordo de cavalheiros? O Nei Lisboa no show Hi-Fi que dizia: "Ó, não adianta pedir biz porque o velho tá velho". E se mandava.
De volta ao show do Camelo. Depois do biz, que terminou com Copacabana e todo mundo sambando, aí sim! O público pediu biz pra valer, com direito a todo mundo cantando o laiá-lá do Além do que se vê, com direito a fãs sentando no chão e começando a chorar, categoria a qual eu me encontro. Seria um lindo final se o coro não parasse repentinamente pra gritar "fica" quando ele soltou o violão pra tomar seu rumo. Uma pena, deveria ter terminado ali, mas ele cedeu e ainda cantou Fez-se Mar.
Desculpe se o e-mail foi grande, mas foi do tamanho do show.
***
Quando estava vindo, ela tinha 62 anos. Mas quando estava indo, 26. Era dona de uma senhora bunda!
Florêncio vivia solito no rancho lá pros lados de Pedro Osório. Nunca casou. Nunca se apegou a nenhuma china. Só viajava pra cidade pra comprar erva Tertúlia. Levava uma vida silenciosa. Não conversava nem com o Faísca, nem com o Queimado, os dois pingos que tinha no brete. Mas ouvia vozes.
Sempre que via algum forasteiro adentrar seus pagos querendo caçar perdiz ou pescar num dos seus dezessete açudes, surgia aquela voz demoníaca do além dizendo:
– Mate! Mate! Mate!!!
O vivente se transtornava. Sentia os músculos da face se petrificarem. As sobrancelhas grossas e negras se curvavam para dentro do rosto e os olhos secavam sem mais piscar. Câimbra ele tinha nas duas, tanto que o facão que ele segurava agora não solta da munheca nem por decreto. E a voz maldita parecia falar cada vez mais alto dentro da sua cabeça, insistindo:
– Mate! Mate! Maaate!!!
O índio-loco então corria para dentro do galpão. No fogo, a chaleira chiava de água fervente. Enchia a cuia até os barbantes e sorvia sem fazer cerimônia, mesmo que queimasse a garganta. E a voz:
– Isso! Isso! Ah, que mate buenacho! E não me esquece de oferecer um chimarrão pras visita.
A bola rolava rente à lateral direita de ataque. O Darciley tentava dominar pelota, mas um carrinho do zagueiro Assombroso levou o ponta, a bola e mais um metro de leiva pra fora do campo. Foi quando começou o bate-boca.
Ainda enroscado nas pernas, Assombroso resmungou algo. Darciley levantou com dedo
Darciley resolveu mudar de lado, jogar pela esquerda. E lá ia o Assombroso na sua cola dizendo um monte de coisas. Quando tinha um escanteio no ataque, o Darciley descia pra marcar o Assombroso e responder no ouvido dele.
O intervalo do jogo não esfriou os ânimos. Antes mesmo de o árbitro iniciar a segunda etapa, os dois discutiam na linha divisória do campo com gestos exaltados. Assombroso sinalizava com os dedos, como quem conta argumentações. Com as mãos na cintura, Darciley balançava a cabeça em discórdia.
Todas as peças ficaram muito apertadas. Voltou da loja de roupas com as mãos vazias e os olhos cheios d’água. Mas foi apenas comendo um xis calabresa com maionese dupla quando começou a chorar.
* * *

Publicado no livro: Contos de Oficina 33 - Editora Nova Prova (Set/2004)
(28 de Março de 2004)
Outro pesadelo horrível. Este foi um dos piores. Eu estava num restaurante francês chiquérrimo, jantando com a Nicole Kidman de "De Olhos Bem Fechados". Ela estava glamourosa e as chances de rolar sexo eram de 99%. Pedi Entrecot ao Molho Rechelier regado a vinho francês. Ao trazer o couvert, o garçom disse que minha mãe me aguardava na porta. Ela trazia meu lanche que esqueci em casa quando fui pro colégio. Pão com manteiga, salame italiano e queijo. Humilhação. Nicole não disse uma palavra, apenas levantou e saiu. Eu vi que ela estava furiosa. No lugar dela surgiu o Paulo Nunes, que ficou correndo em volta da mesa fazendo aviãozinho.

Nota: Meu mestre Assis Brasil diz que o velho misterioso, apesar de ser um clichê, é um recurso que, mais cedo ou mais tarde, todo autor acaba usando. No meu caso, mais cedo. Assim me livro desse compromisso.

