Segunda-feira, Outubro 05, 2009

O prepúcio do Führer

Que Elvis não morreu todo mundo já sabe. Agora, o que tenho em minhas mãos é nitroglicerina pura! Quem diria, eu, um mero informata que paga as contas arrumando computadores nessa cidade no fim do mundo fosse descobrir a notícia mais bombástica da humanidade? Hitler está vivo! Isso mesmo, Adolf Hitler está vivo, mora a qui mesmo em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, Brasil. Eu tenho como provar. Semana passada, um cliente contratou meus serviços para remover um vírus do seu computador. Antes de formatar a máquina, fiz o back-up dos dados. Como de costume, dei uma bisbilhotada, afinal, sempre tem foto de mulher pelada nos PCs que conserto. Sempre. Porém, desta vez achei mais: alguns e-mails trocados por este meu cliente e o ex-chanceler alemão. A reprodução fiel e integral está abaixo:

----- Original Message -----
From: orlando.r@pegasus.com.br
To: adolf_h89@hmail.com
Sent: Tuesday, Jan 08, 2009 11:25
Subject: Atraso no Condomínio

Prezado Sr. Adolf

Agora já chega!
São 12 meses de condomínio atrasado. Um ano!!!
Fico imaginando qual desculpa virá agora?
Alegar ter que pagar o enterro de sua avó foi o maior descalabro que ouvi na vida.
Pague o condomínio ou vamos de resolver isso na justiça.

Atenciosamente,
Orlando Rosemberg
Síndico do Edifício Bremen


----- Original Message -----
From: adolf_h89@hmail.com
To: orlando.r@pegasus.com.br
Sent: Tuesday, Jan 08, 2009 15:44
Subject: Re: Atraso no Condomínio

Orlandinho

Mein Gott! Em meus 119 anos de vida, nunca fui tão insultado.
Que culpa tenho eu se minha família tem uma genética privilegiada e longeva? Uma genética tipicamente ariana.
Minha avó morreu aos 155 anos pegando-nos de surpresa. Um ataque fulminante, mais surpreendente que uma blietzkrieg. Eu não estava preparado para perder minha Omma, nem com os custos do funeral.

Deixe-me contar uma pequena história:
Quando a Guerra acabou, fiquei escondido por dois anos dentro de uma televisão Telefunken. Era o esconderijo perfeito, ninguém nunca abriu uma daquelas caixas de madeira pra saber o que havia lá dentro. Depois de zanzar alguns anos pelo Leste Europeu e norte da África, decidi vir para o Brasil em 1970 com meu amigo Ronald Biggs. Ele me convenceu quando disse: “Brasil, oras, o país dos canalhas onde todo filho da puta pode ser dar bem”.

Quando cheguei ao seu país, a ditadura estava no auge e se tem algo que conheço bem é uma ditadura. Mas eu seria facilmente reconhecido se ficasse ao lado dela naquele momento. Decidi me disfarçar estando no lado contrário. Construí uma fabriqueta de adesivos de protesto ao regime militar. “O Pluto é filho da Pluta” e “Elas são do baralho” foram criações minhas, entre tantas outras.

E assim fui levando. Minha vida estava alles gutte, até a maldita anistia de 1980 e aquela palhaçada de Diretas Já. Meus adesivos perderam sentido e tive de mudar de ramo. Foi aí que comecei a fazer máscaras de carnaval com meu próprio rosto. O sucesso voltou, mas não por muito tempo. Em 1990 as vendas caíram bruscamente, pois todos queriam usar a máscara do presidente no carnaval. Ou seja, eu sou mais uma vítima do Plano Collor. Fali. Mudei para o sul, onde o custo de vida é mais baixo, onde há mais arianos como eu, onde há uma cidade com nome de Hamburg e um prédio com nome de Bremen, duas das minhas cidades preferidas, onde há o Grêmio, o time azul do meu Shalke04, onde vejo uma Eva Braun em cada esquina.

Vou contar mais um segredo: sabe como começou a Segunda Guerra? Num monótono dia do outono de 39, sem ter nada para fazer, eu disse para o General Goebbels em tom satírico “Sabe o que seria engraçado? A gente invadir a Polônia”. No dia seguinte, Varsóvia comia chucrutes.

Por que estou dizendo tudo isso? Porque na Alemanha o meu humor não era compreendido. O Brasil é ótimo por causa disso, ninguém leva nada a sério. Então, acho que finalmente chegou a minha vez. Ainda que atrasados, finalmente, os espetáculos de stand up comedies estão virando moda por aqui e, no fim deste mês, estarei lançando o meu show numa badalada casa da cidade! O nome será “O Prepúcio do Führer”, trata-se de uma antologia de piadas de judeu, mesclado com algumas canções sionistas de quinta categoria. Você é meu convidado e quero vê-lo na primeira fila.

Como pode ver, minha idéia é fazer fortuna no showbizz e, assim, poder pagar os 12 meses de atraso no condomínio. Não seja tão judeu, Rosenberg,e me dê mais esta forcinha.

Seu vizinho
Adolf



----- Original Message -----
From: orlando.r@pegasus.com.br
To: adolf_h89@hmail.com
Sent: Wednesday, Jan 09, 2009 10:12
Subject: Re: Re: Atraso no Condomínio

S. Adolf, seu velho maluco!

Suas piadas não têm a menor graça.
Apenas uma mente doentia como a sua é capaz de fazer pilhéria
com uma das maiores atrocidades da história.
Só falta dizer que o extermínio de 5 milhões de judeus foi um truque
de desaparecimento que não deu certo no seu show de mágica.
E que Auschwitz era o projeto embrionário da Euro-Disney.
Nunca vi tamanha insanidade! Seu monstro assassino comedor de catofla!
Se não pagar o condomínio até o final deste mês, o senhor será
processado pelos moradores do Edifício Bremen
e eu vou denunciá-lo à Polícia.
Merda para você e seu espetáculo,
e não me refiro aos jargões teatrais.
Vá para o inferno!

Atenciosamente,
Orlando Rosemberg
Síndico do Edifício Bremen

P.S. – Quero que devolva o meu CD do Wagner imediatamente.


----- Original Message -----
From: adolf_h89@hmail.com
To: orlando.r@pegasus.com.br
Sent: Wednesday, Jan 09, 2009 21:54
Subject: Re: Re: Re: Atraso no Condomínio

Quanto mal humor, Rosenberg!
Das get nicht!
Até parece que você é o alemão e eu, o comediante judeu.

Não vou levar seus comentários para o lado pessoal.
Em vez disso, vou agradecê-lo.
Primeiro, pelo prazo que está me dando para o pagamento.
Até lá, O Prepúcio do Führer estará bombando e eu serei
“o mais novo comediante velho do Brasil”. Gostou dessa?

E, em segundo lugar, pelo empréstimo do “Wagner Disco Night”.
A versão remix da Cavalgada das Valquírias é a minha preferida.
Vou colocar o CD na sua caixa de correspondências.

Gostaria de pedir desculpas por todo este infortúnio provocado
através de uma pequena lembrança. Uma recordação que guardo com carinho, como um dos momentos mais felizes destes mais de 25 anos neste edifício. Trata-se de uma fotografia nossa trocando presentes, quando fui seu amigo-secreto em uma singela comemoração de natal do nosso condomínio. Depois de tantos anos longe da Alemanha, foi a primeiro vez que me senti em casa, como uma família, entre amigos. Isso foi em 1996 ou 97. Lembra? Não. Dê uma olhada clicando no link abaixo. Clica, vai.

www.wormdestroier.com/pic98674.exe



 Terça-feira, Setembro 29, 2009

Um conto rodrigueano

A mulher passou os nove meses de gestação repetindo aquela ladainha. Quero que ele seja igual ao pai. De fato, o petiz saiu cuspido e escarrado a cara do Almeida. Tanto que, antes mesmo dos três anos, só se chama o guri de Almeidinha. E não apenas os traços físicos que eram idênticos, o jeito de andar, de mastigar a comida nos dentes da frente, a mania de coçar o meio dos dedos do pé, o temperamento, a indiferença ao futebol, tudo parecia copiado e autenticado em cartório.

Na educação, o Almeidinha percorreu rigorosamente o mesmo itinerário estudantil do Almeida. Ginasial no Colégio Militar, completou o Clássico no Das Dores para, depois, fazer Direito na Federal do Rio de Janeiro. Até aspirou um cargo de juiz, mas o Almeida não deixou.

– Vai trabalhar comigo no jurídico do Banco do Brasil – dizia o pai alegando menor incomodação – Faz-se porra nenhuma o dia inteiro.

O Almeida ostentava a mais bela das fachadas de reputação. Quem o via na rua, dizia lá vai um homem correto, trabalhador e fiel. No entanto, era um putanheiro de marca maior. Matava o serviço pra frequentar um rendez-vous lá pros lados do Grajaú pelo menos duas vezes por mês há mais de vinte anos. Era garantido, no elevado nível que a sua discrição exigia. Ia sempre lá, e quando mudava os ares, sempre se dava mal. Certa vez, chegou a inventar uma história mirabolante que envolvia viagem para Petrópolis com o Presidente Café Filho para escapar de casa num sábado à noite e ir até Jacarepaguá, onde havia nova casa de tolerância só com mulheres gaúchas. Conseguiu, mas lá, deu de cara com o Almeidinha num corredor de luz negra. Depois de dez segundos de silencioso pânico recíproco, deu uma ordem simples ao filho:

– Não nos vimos – e o pacto estava feito. Levou dois dias para pai e filho se recuperarem do susto, passarem pela perplexidade, e sorrirem, mesmo sem um saber do outro.

No entanto, foi dois anos depois desse episódio, aproximadamente, que aconteceu. Numa terça-feira qualquer, por volta das 15 horas, o Almeida inventou uma consulta ao oftalmologista para visitar uma amantezinha de 22 anos que sustentava lá perto das Laranjeiras.

– Rachamos o táxi – disse o Almeidinha – preciso ir ao escritório do Dr.Palhares buscar uma petição.

Desceram três ruas abaixo do Catete. Era perfeito para ambos, pois estariam a duas quadras do destino de cada um. Foi cada um para um lado e, cinco minutos depois, toparam na portaria do Edifício Santa Clara.

– O escritório do Palhares também é aqui? – ruminou o desconfiado Almeidão.

– Pois é, coincidência.

A coincidência maior, porém, foi os dois subirem até o quinto andar e caminharem lado a lado, sem usar de olhar periférico, até estancarem diante do tapete de bem-vindo do apartamento 512.

Ninguém nunca soube de nada. Nem a suculenta Jandira, a fulaninha que morava no tal apartamento e que, com toda a semelhança, jamais percebera que pai e filho eram iguais até nisso. Também nunca mais os viu.

 Segunda-feira, Março 30, 2009

A Bula da Vó Bila

Eu devia ter cinco ou seis anos no dia entrei na cozinha da casa da Vó Bila e a encontrei fazendo um pacote de presente. Sobre a mesa havia uma caixa de sapatos da Azaléia, tesoura, durex, um papel vermelho vistoso (patrocínio Livraria Flama) e aproximadamente 50 pilhas Rayovac, as amarelinhas, já gastas, inutilizadas.

Ela encheu a caixa com as pilhas e embrulhou com o papel. A calma e o capricho que ela fazia aquilo eram de forma exemplar. Perguntei pra quem era presente estranho. Assobiando, ela só me disse um “tu vais ver”.

Pronto o pacote vermelho, a Vó postou-me à janela da sua casa para eu olhar através das cortinas. Ela caminhou devagar até a calçada olhando para todos os lados como faria um espião secreto dos desenhos da TV. Quando não viu ninguém, largou o pacote no chão e chispou pra dentro de casa. Ao meu lado na janela, disse para observar em silêncio.

A primeira pessoa que passou, notou a caixa, era impossível não notar, porém seguiu seu rumo. O segundo pedestre passou direto, o terceiro chegou a parar diante do pacote, mas não pegou. O quarto chegou a falar um “veja só”, e isentou-se. Foi a quinta pessoa que parou, agachou-se, pegou o embrulho, sacudiu, olhou para os lados e saiu faceiro com presente debaixo do braço.

Seguramos a gargalhada até a nossa vítima sair do campo de visão. E rimos muito imaginando a cara surpresa do rapaz abrir a caixa com dezenas de Rayovac vencidas. Repetimos a brincadeira algumas vezes ao longo da minha infância. Era preciso acumular pilhas para ter graça.

Penso que, com aquela pequena sacanagem inofensiva, a Vó Bila estava querendo me dizer algo muito importante: na vida a gente deve se divertir. Ela não me falou isso, e nunca sentou à minha frente para dar algum conselho ou ensinar alguma lição. Mas acho que ela fez isso na prática.

Dia 2 de março de 2009 a Vó Bila completou seu 90º aniversário.

 Terça-feira, Fevereiro 03, 2009

Minicontos, nova leva

Na hora h, desistiu de roubar talões. O cheque não compensa.

* * *

Depois da fama, ela decidiu escrever sua própria biografia não-autorizada.

* * *

Reunião dançante. Ela disse “não”. Ele entendeu “Dançar com você? Não seja ridículo. Será que você não se enxerga, seu patético? Suma daqui!”.

* * *

Terminado o parto, não quis saber o sexo do bebê. Achava muito cedo para impor papéis à pobre criança.

* * *

Ele sabia que sua esposa era a mais linda do bairro e a menos honesta. Quando a flagrou na própria cama com outro homem, ela admitiu. Ele negou.

* * *

O diabo sorriu e respondeu a pergunta:
– Nós não temos toilettes, monsieur.

* * *

Depois de tantos anos, culpava a mulher por nunca ter engravidado. Só podia ser. Segundo o médico, ele não tinha porra nenhuma.

* * *

Já no 2º Grau, matava as aulas de química para ir ao puteiro. A escola não podia atrapalhar a sua educação.

* * *

Ela vestia um longo, preto e Armani. Ele uma sunga de couro, duas correntes ferro no tórax e tatuagens. Com a piteira e o cigarro Red Apples na mão, ela lança a voz rouca:

– Tem fogo?

– Não tenho bolso.

 Terça-feira, Janeiro 06, 2009

Eu matei João Paulo Primeiro

O catecismo é o ensino da doutrina católica, com o qual se pode conhecer boa parte do que a Igreja professa, celebra e reza em seu cotidiano. Além disso, o catecismo dá ao catequizado o direito de comungar, ou seja, tomar a hóstia no fim da missa, além da garantia que a mãe não terá um infarto por ter botado no mundo um filho herege. Ou seja, é formatura em medicina do bom cristão.

Fiz a catequese, como a gente diz, em 1978, um ano bem agitadinho pro pessoal eclesiático. As aulas começavam em março e a Missa da Primeira Comunhão concluía o curso lá em novembro. Uma vez por semana ouvíamos parábolas, só as manjadas, aprendíamos orações como Salve Rainha e, lá por agosto, tínhamos que fazer a confissão. Isso mesmo, uma criança de 11 anos tinha que sentar diante de um padre e confessar seus pecados.

Minha estréia no confessionário não foi no confessionário. A primeira vez era na sala reservada da paróquia, cara a cara com o padre. No meu caso, o Monsenhor Ottmar, um senhor prussiano com mais de 100 quilos, surdo e tomado pela senilidade. Que fim de carreira, pensei, ouvir as molecagens dos perus do bairro. Fiquei uma semana pensando o que iria dizer pra ele:

– Eu falo muito palavrão... eu não lavei a louça pra minha mãe... puxei o cabelo da minha irmã... – e como bom fã do Tim Maia, no final ainda disse que mentia um pouco.

O Monsenhor Ottmar não deu muita bola pro que eu falei:

– Meu filho, o palavrão quando dito de maneira não ofensiva e ou dirigida a alguém, é feio, mas não é pecado.

Beleza! Tô bem. Mas ele completou:

– E como anda o “Pecado Solitário”, hum?

Virgem Maria, tem isso? Desconversei, disse que não sabia do que se tratava.

– É bom não saber – disse ele – cada vez que você pratica o Pecado Solitário, está prejudicando a saúde do nosso Santo Padre, o Papa.

De todas as balelas que ouvi, esta foi a maior de todas. Mas ele foi legal comigo, liberou os palavrões e me deu três Pai Nosso e três Ave Maria como penitência. Rezei pensando na morte do Paulo VI, que aconteceu no início de agosto. O problema é que tenho um defeito grave com autoridades. Basta eu receber uma ordem que me dá uma vontade louca de descumpri-la. E o melhor da minha religião é que a gente pode aprontar à vontade, se arrepender depois e tá tudo zero a zero de novo.

Terminei as orações, saí da igreja e fui direto na banca de revistas. Descolei a Playboy da Betty Faria “finalmente nua” como dizia na capa. Por pura afronta ao padre, tornei-me o rei do Pecado Solitário. Dominei tão bem a prática que aos 11 anos eu já era um decano no assunto, poderia dar uma palestra sobre e, assim como o Roy Rogers, eu tinha as mãos mais ligeiras do oeste.

Um mês depois, dia 28 de setembro, meu ménage a trois com a Sonia Braga e a Brooke Shields (talvez a única vez que atuaram juntas) foi interrompido pelo som da vinheta do Plantão da Globo: “Morreu agora há pouco no Vaticano, de causas ainda não esclarecidas, o Papa João Paulo Primeiro”.

Diante da TV, de toda família, e ainda com a revista na mão, só disse uma frase:

– Que que eu fiz!?!

 Sábado, Dezembro 27, 2008

O elevador

Um homem baixo entra no saguão de um prédio comercial normando. Seis pessoas aguardam a chegada de um dos dois elevadores do edifício. O baixinho é o sétimo. O silêncio é absoluto. A luz do T acende, o elevador chegou. Abre a porta. Quatro saem, seis entram. Lotado! Como chegou por último, ele precisa esperar o outro elevador. Não demora muito, o tempo suficiente para ele ajeitar os óculos de aros vermelhos e grossos e dar uma suspirada comprida.

A luz do T do outro elevador acende. Abre a porta. Ninguém sai, só ele entra. E aperta o botão número cinco, já que quer ir ao quinto andar. A porta fecha e o elevador sobe. O espaço é pequeno, não parecem caber seis pessoas, como no outro.

A luz do painel indica que ele está no terceiro andar, agora no quarto, no quinto, no sexto. Opa, ele deveria ter parado no quinto. Agora no oitavo, aumentando a velocidade. O homem aperta todos os botões, mas nada adianta. Décimo e último andar, mesmo assim o elevador não pára. Ele sobe, sobe, cada vez mais rápido até o momento que muda a trajetória. Começa a inclinar para trás descrevendo uma parábola. Inclina até ficar na horizontal. Por pouco tempo, pois o trajeto curvilíneo continua até o elevador ficar de cabeça para baixo. Lá dentro, o homem cai e é jogado como um brinquedo dentro de uma caixa de presentes chacoalhada por uma criança curiosa. O elevador verticaliza para cumprir o formato de uma letra U de cabeça para baixo, ou seja, agora ao subir, está caindo.

– Basta, Lenny! Acenda a luz.

O projetista cumpre a ordem, mas a projeção continua. A claridade impossibilita ver o desfecho do filme em preto e branco.

– Nunca vi tamanha presunção.

– O cinema não pode ser o divã de um diretor em crise existencial.

– Isto era para ser uma comédia ou estou enganado?

– Convenhamos, a metáfora da insegurança, da falta de rumo, do deslocamento e da impotência é genial!

– As pessoas não querem metáforas, querem a realidade.

– Elas querem ficção, George.

– Elas querem realidade, sim. O mundo real é o melhor lugar para encontrar um bom Entrecot ao Gorgonzola.

 Sexta-feira, Outubro 17, 2008

Pois é, não deu

Vou postar um texto que não é crônica, nem crítica, nem resenha. É um e-mail que mandei para o querido amigo Vinícius, diretor de arte, guitarrista, conhecedor musical e sapateiro de mão cheia, o cara que me disse: "escuta Los Hermanos, meo". O e-mail é sobre o show do Marcelo Camelo, que assisti ontem (16/10/2008) em Porto Alegre.

Este
blog era pra ser dedicado somente aos meus escritos fictícios, mas resolvi abrir uma exceção pra mim mesmo. Pra não me sentir tão culpado, revisei o texto, acrescentei uma ou duas idéias que não tinha colocado, deixei outras mais claras. Assim não fica idêntico ao e-mail que mandei pro meu amigo e um pouquinho ficcional. Por que não, ora blogs?


de: Gabriel
para:Vinícius da Cunha
data:17 de outubro de 2008 10:23
assunto:Pois é, não deu

Não deu pra entender muito o fim dos Los Hermanos, agora. Na verdade até dá, “casamento é como um tubarão”, já dizia o mestre, mas depois do show de ontem, fui ao show do Marcelo Camelo e saí feliz, curioso e intrigado com o fim da banda, algo que para mim já era assunto encerrado.

Saí feliz porque muito do Los estava presente no show. Não me refiro ao repertório (que incluiu umas cinco, seis ou sete músicas da banda), mas toda atmosfera que os envolve. Pra começar, o público era do Los. Todo mundo com camisetas por cima de camisas, ou debaixo de blusas velhas, jaquetinhas e até as mulheres tinham barba. Tinha o Camelo, evidentemente, mas o que me chamou mais a atenção foi a banda Hurtmold, que o acompanha. Não os conhecia, nunca tinha escutado os caras. Muito bons, mas, à exceção da presença de um percussionista, eles são os Los Hermanos tocando. Se não são, é como se o Camelo dissesse: "toquem assim, ó".

O show, assim como o disco Sou, me pareceu a evolução dos Los Hermanos. É como se fosse o próximo passo que a banda daria depois que tomou do Bloco pro Ventura, do Ventura pro 4 e o que seria do 4 pro "Somos(?)". Isto foi o que, de certa forma, me deixou feliz. Se eu fechasse os olhos e ignorasse a existência da voz do Amarante, poderia acreditar que estava num show deles.

A curiosidade fica por conta do Little Joy, a nova banda do Amarante. Tenho a impressão que por ser mais inquieto que o Camelo, este sim, fará algo bem diferente. Porque senão não teria razão para o Los Hermanos acabar, a não ser o fato que todo carnaval tem seu fim.

Sobre o show, mais especificamente:

Gostei demais. É verdade que começou dando medo. A introdução foi com Passeando, mas dá pra dizer que o show começou mesmo com Téo e a Gaivota. Só que esta virou uma punheta do Camelo. Pausas gigantescas dentro da música, trechos experimentais com distorsões tão excessivas que harmonia parecia se chamar barulho. Era impossível para mim ter prazer estético com aquilo. Só ele parecia curtir e nós pensávamos: meodeos! Tudo bem, é direito do artista, mas, sei lá, acho que a gente tem que pensar no público que nos vê, nos ouve, nos lê, enfim. Daí acalmou. Fez o set list em cima da ordem do disco, só invertendo Doce Solidão com Janta, que, aliás, a partir de entã o o público relaxou e aí foi só alegrias. O mais legal do show: ele estava nitidamente emocionado e contagiava a todos com isso .

O biz, rapaz, merece um parágrafo:

Parágrafo: Não funcionou. Acho que ele escolheu a música errada pra terminar a primeira parte do show. Ficou tão clara aquela coisa de "agora eu saio, mas volto" que o público não insistiu muito. Saiu em quase silêncio e voltou da mesma forma, meio contrangedora. A verdade é que não gosto da cultura desse tipo de biz. Todo show tem. Todo mundo sabe que o cara, ou a banda, vai voltar. Pra que esse acordo de cavalheiros? O Nei Lisboa no show Hi-Fi que dizia: "Ó, não adianta pedir biz porque o velho tá velho". E se mandava.

De volta ao show do Camelo. Depois do biz, que terminou com Copacabana e todo mundo sambando, aí sim! O público pediu biz pra valer, com direito a todo mundo cantando o laiá-lá do Além do que se vê, com direito a fãs sentando no chão e começando a chorar, categoria a qual eu me encontro. Seria um lindo final se o coro não parasse repentinamente pra gritar "fica" quando ele soltou o violão pra tomar seu rumo. Uma pena, deveria ter terminado ali, mas ele cedeu e ainda cantou Fez-se Mar.

Desculpe se o e-mail foi grande, mas foi do tamanho do show.


 Quarta-feira, Outubro 15, 2008

As idades

- Qual mesmo a sua idade?

- Tenho 30, mas na verdade era pra ser 31.

- Como assim?

- Teve um ano que o meu pai tava sem dinheiro, aí eu não fiz aniversário.



***


Sempre vaidosa, dizia que os dez melhores anos da sua vida foram aqueles entre os 29 e os 30.



***


Quando estava vindo, ela tinha 62 anos. Mas quando estava indo, 26. Era dona de uma senhora bunda!




 Segunda-feira, Outubro 13, 2008

A esquizofrenia do pampa

Florêncio vivia solito no rancho lá pros lados de Pedro Osório. Nunca casou. Nunca se apegou a nenhuma china. Só viajava pra cidade pra comprar erva Tertúlia. Levava uma vida silenciosa. Não conversava nem com o Faísca, nem com o Queimado, os dois pingos que tinha no brete. Mas ouvia vozes.

Sempre que via algum forasteiro adentrar seus pagos querendo caçar perdiz ou pescar num dos seus dezessete açudes, surgia aquela voz demoníaca do além dizendo:

– Mate! Mate! Mate!!!

O vivente se transtornava. Sentia os músculos da face se petrificarem. As sobrancelhas grossas e negras se curvavam para dentro do rosto e os olhos secavam sem mais piscar. Câimbra ele tinha nas duas, tanto que o facão que ele segurava agora não solta da munheca nem por decreto. E a voz maldita parecia falar cada vez mais alto dentro da sua cabeça, insistindo:

– Mate! Mate! Maaate!!!

O índio-loco então corria para dentro do galpão. No fogo, a chaleira chiava de água fervente. Enchia a cuia até os barbantes e sorvia sem fazer cerimônia, mesmo que queimasse a garganta. E a voz:

– Isso! Isso! Ah, que mate buenacho! E não me esquece de oferecer um chimarrão pras visita.

 Segunda-feira, Outubro 06, 2008

Aos 23 do segundo tempo

A bola rolava rente à lateral direita de ataque. O Darciley tentava dominar pelota, mas um carrinho do zagueiro Assombroso levou o ponta, a bola e mais um metro de leiva pra fora do campo. Foi quando começou o bate-boca.

Ainda enroscado nas pernas, Assombroso resmungou algo. Darciley levantou com dedo em riste. O bandeira separou os dois. Voltaram pro jogo. A partir daquele momento, não desgrudaram mais.

Darciley resolveu mudar de lado, jogar pela esquerda. E lá ia o Assombroso na sua cola dizendo um monte de coisas. Quando tinha um escanteio no ataque, o Darciley descia pra marcar o Assombroso e responder no ouvido dele.

O intervalo do jogo não esfriou os ânimos. Antes mesmo de o árbitro iniciar a segunda etapa, os dois discutiam na linha divisória do campo com gestos exaltados. Assombroso sinalizava com os dedos, como quem conta argumentações. Com as mãos na cintura, Darciley balançava a cabeça em discórdia.

Em todas as rádios, os comentaristas profetizavam o óbvio: os dois ainda serão expulsos da partida. Aos 23 minutos do segundo tempo foi quando aconteceu. Cansado de argumentar, Darciley apertou o nariz de Assombroso, na réplica, um empurrão. Cartão vermelho para ambos, claro. O zagueiro saiu correndo atropelando os repórteres. O outro para dar explicações aos microfones o que eles tanto falavam em campo.

– Ah, esse cara é brincadeira! Desde o começo do jogo ele tá dizendo que o problema do Brasil é a forma da colonização extrativista dos portugueses – Darciley ainda disse que Assombroso defendia a tese que nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália os imigrantes foram para morar, e que esta diferença estaria no DNA cultural dos brasileiros em comparação aos norte-americanos.

Estádio em silêncio. Repórteres mudos. Quando um ameaçou recolher o microfone, Darciley puxou de volta.

– Isso é uma bobagem, o problema é que o Brasil não conseguiu resolver a questão da educação. – E completou antes de entrar no vestiário bufando – Nos Estados Unidos existem duas mil universidades de ponta enquanto aqui temos cento e doze caindo aos pedaços, essa é a diferença.

A imprensa que cobria a partida concordou integralmente. Tinha mesmo que botar os dois pra rua.

 Segunda-feira, Novembro 05, 2007

Dez minicontos

Durante o assalto ao banco, toca o celular do bandido:
- Alô! Não posso falar agora, estou trabalhando.



* * *


Com o raio-x na mão, o médico deu a Juvenal apenas seis meses de vida. Mas como Juvenal não tinha dinheiro para pagar, o médico deu mais seis.

* * *

Das mãos de um padre, recebeu um bilhete com o número do telefone de Deus. Ligou imediatamente.

- Aqui é Deus, no momento não posso atendê-lo, deixe seu recado após o sinal.
Beeeep.



* * *


Ela revirava as gavetas da cômoda procurando aquilo que não tinha guardado. Quando finalmente encontrou, não o reconheceu.



* * *


Todas as peças ficaram muito apertadas. Voltou da loja de roupas com as mãos vazias e os olhos cheios d’água. Mas foi apenas comendo um xis calabresa com maionese dupla quando começou a chorar.

* * *


Assim que saiu do cabeleireiro, olhou para cima. O céu estava carregado. Ela viu que o permanente não iria durar muito tempo.


* * *

Filósofo, desistiu de procurar o sentido da vida. Queria, agora, investigações mais profundas, como entender o Imposto de Renda.


* * *

Todas as manhãs Deus acorda e procura seus chinelos. Como o universo está em expansão, cada dia que passa Ele leva mais tempo para encontrá-los.


* * *


O babalorixá ligou seu laptop, acendeu um charuto, jogou uns milhos sobre o teclado e esperou aquele importante e-mail baixar na sua caixa de entrada.


* * *


No noite de sua formatura, Walter comemorou durante seis horas num motel grã-fino regado a champanhe francês. Se estivesse acompanhado de uma mulher teria sido o maior dia da sua vida.

 Terça-feira, Outubro 23, 2007

O apito de chamar mulher

Taí o Dória, que não me deixa mentir.

- É vero!

O Dória é um daqueles amigões de fé. Amigão mesmo. Amigo de porre, de beber junto até vomitar. Amigo de longa data, de infância, do tempo que a gente era guri e roubava revista de mulher pelada em banca da esquina. E depois nós revendíamos as revistas na escola pelo dobro do preço, porque era câmbio negro. A gente faturava uma nota. Eu paguei a formatura do 2º grau só com Playboy roubada, sabia? E taí o Dória, que não me deixa mentir.

- É vero!

E o Dória é daqueles amigos que estão sempre juntos, na boa e na ruim. Quando eu perdi o emprego, quem me deu força? O Dória. Quando minha esposa me botou pra rua de casa, quem me acolheu? O Dória. E quando jogamos contra o time dos bancários, num sábado de tarde, no segundo tempo eu cobrei o escanteio e corri pra grande área tão rápido que cheguei em tempo de fazer o gol de cabeça, quem era o goleiro do nosso time? O Dória, que não me deixa mentir.

- É vero!

E quando nosso avião caiu na Amazônia, então. O que? Eu nunca contei pra vocês? Nós estávamos sobrevoando a floresta amazônica quando deu uma pane na aeronave e caímos em plena selva. Pouquíssemos sobreviventes, o piloto, dois ou três caras, eu e o Dória, que não me deixa mentir.

- É vero!

Depois de muita luta, conseguimos fazer o rádio funcionar pra pedir socorro. O resgate era uma questão de dias e nós, no meio daquela selva, sem ter o que comer e o pior, sem ter o que fazer. Foi aí que eu lembrei que eu tinha no bolso o meu Apito de Chamar Mulher. Pensei "é isso, vou usá-lo". Rapaz, não deu dez minutos e a gente estava rodeado de mulher. Taí o Dória, que não me deixa mentir.

- Mas também apareceu cada bagulho!



 Sexta-feira, Setembro 21, 2007

Regressão

A descrença total faz com que a pessoa passe acreditar em tudo. Talvez esta seja a única explicação para eu ter concordado com meu analista em fazer uma sessão de regressão.
Voltei à infância, reencontrei mortos, visitei outras vidas. A mais distante de todas não consegui definir quem eu era, nem onde estava. Tratava-se de um lugar árido e pobre como o nordeste que Graciliano descreveu em Vidas Secas. A arquitetura era edificada com areia, madeira e pedra, e as vestes das pessoas eram feitas de um tecido cru que aparentava se desmanchar com qualquer puxão. Tudo tinha um tom sépia.

Quando dou por mim, vejo o povo aglomerado nas calçadas. Para descobrir o que acontece, me aproximo. Uma mulher enrugada, provavelmente com muito menos idade do que aparenta, carregada de ódio me conta que aguardam a passagem de um bandido. Naquele tempo os bandidos, em vez de presos, eram amarrados em cruzes e expostos à sociedade. Como eu também odeio bandidos, não tive dúvidas, fiquei ao lado da velha para apupá-lo.

Lá vem ele. Carregando sua cruz, é nítido que ele já tomou uma bela duma sova. Seminu, tem o corpo ensangüentado por chibatas e um tipo de chapéu feito de galhos repletos de espinhos grossos e que foram cravados na sua cabeça. Quando ele atravessa a minha frente, não me deixo abater por sua aparência fragilizada. Dou-lhe um bico no tornozelo à la Dinho do Grêmio e quando ele se estatela no chão ainda digo:

- Toma, barbudo sujo!

Então ele se levanta com muita calma, dá uma olhada no cotovelo esfolado, junta a cruz caída, recoloca-a em seu ombro esquerdo e pára diante de mim. Não diz uma palavra. Apenas fixa seu olhar no meu. E então mostra a palma da mão e a movimenta para frente e para trás duas vezes numa trajetória lenta e bem curtinha, como quem diz "aguarde".

Fim da regressão. Isso explica muita coisa.

Do Diário Secreto de Gabriel Daudt - 5

(14 de Abril)

Não sei quando vou me adaptar à indiferença da cidade grande. Pela manhã, no Centro, assisti uma cena de horror: quatro brutamontes espancavam uma senhora idosa. Os transeuntes, passivos e os marginais a cobrir a velha de porrada. Eu pensava: me meto? Não me meto? Me meto? Não me meto. Me meti. Matamos a velhinha, finalmente.

 Terça-feira, Setembro 18, 2007

Bodas de estanho

Os aniversários de casamento eram regados a champagne e muitas risadas dos dois. No dia que comemoraram as bodas de estanho, brindaram na cama entre lençóis brancos. E nesses 10 anos, adoravam conversar. Falavam de tudo. Da largada da Fórmula 1 ao sentido da vida. No entanto, as relações eram o assunto predileto de ambos. Era ali que os dois brilhavam. Naquele dia, naquela cama, Cassandra perguntou pro Fausto por que eles casaram. Ele disse que não havia um motivo, mas vários. Eram filosóficos demais para resumir em uma resposta superficial como o amor. Então a conversa descambou. Amor é querer o bem do outro, casamento é outra coisa, nada a ver. Casamento é o orgulho da posse. Ou, em última análise, o permisso para os casais de namorados transarem desenfreadamente sem ficaram falados pela família e vizinhança.
Cassandra não era tão definitiva, para ela, por isso levou a questão adiante:

- Se amar é querer o bem do outro, e o convívio sabidamente corrói as relações, por que pessoas como nós se casam?

Silêncio.

- Casam-se pra separar um dia – respondeu Fausto.

Gargalhadas.

Silêncio.

- É isso mesmo - Ele insistiu. E depois, como um advogado de réu confesso, defendeu que o casamento é uma instituição falida, mesmo sabendo que o seu casamento derrubava a própria tese.

E Cassandra, pessimista como só ela, e cega de amor, deu razão ao marido. Mas como um ainda queria muito o bem do outro, o medo entrou no meio do papo dos dois.

- Ai, Fausto, então um dia nosso casamento também vai acabar?

- Eu não quero te ver sofrer, meu bem.

Abraçaram-se e um beijo selou a decisão: separaram naquele dia, naquela hora, naquela cama. Amavam-se tanto que a hora de terminar era essa. Nada de brigas, de traições, de mágoas, de advogados e ainda evitariam discussões intermináveis na separação de bens que, nessas horas, até discos do Engenheiros do Hawaii ganham valor semidivino.

- Pelé encerrou sua carreira no auge – disse Fausto – por isso ele era um gênio. Nós estamos parando no auge, também.

Ela, na mesma hora, fez questão de deixar claro:

- Eu só me separo de você porque eu te amo demais.

E ninguém pode dizer que o casamento de Fausto e Cassandra não deu certo.

 Terça-feira, Setembro 04, 2007

A história de Javier La Puerta

Casados há 36 anos, Olga e Esteban formavam um típico casal católico da comunidade. Freqüentavam a missa nos domingos de manhã, ela participava de novenas e ele era um dos barítonos do coral da Igreja. Eram figurinhas carimbadas em batizados, cerimônias de primeira comunhão e até naqueles cursos de casal em véspera de casamento. Foi num desses eventos religiosos, a crisma do filho de um vizinho, que Olga foi abordada por Mirtes quando Esteban estava em um círculo formado apenas por homens. Ela disse estar receosa por tocar num determinado assunto cuja necessidade de falar passa dos seus limites de controle. Sem saber do que se trata, Olga dá sinal verde à amiga:

- Esteban? O meu Esteban?

Mirtes concorda com a cabeça. Perguntou se ela conhecia bem o passado de Esteban na sua terra natal e se tinha consciência do seu passado negro. Olga disse que o marido nunca guardara segredos, por isso essa história de passado negro ganhava ares de mistério. Tentou extrair algo.

- Não sei de nada – disse Mirtes – só estou lhe contando algo que ouvi Juanito comentar ao meu marido.

Juanito era um açougueiro uruguaio que veio com Esteban para o Brasil há mais de 40 anos e que por isso mantinham relativa amizade. Olga, então, comentou que o procuraria.

- Cuidado – ordenou Mirtes antes de se despedir.

Olga não comentou nada com o marido, claro, e durante alguns dias questionou a si mesma se isso não seria um devaneio, uma demonstração de senilidade de Mirtes. Mas a pulga continuava atrás da orelha e quando isso começou a lhe roubar o sono, foi procurar Juanito. Ele, por sua vez, não fez cerimônia e contou tudo.

Catatônica, Olga chegou um casa com dores no peito e falta de ar. Chamou Mirtes, que veio imediatamente. Aos poucos, foi contando o que ouvira de Juanito. Esteban tinha outro nome, fora casado com uma mulher dez anos mais velha que ele e tinha um enteado. O queixo de Mirtes foi ao chão.

- Mas o pior está por vir – anunciou Olga. Ela contou que Esteban estava metido em jogatinas sem a esposa saber. As ameaças de credores de uma dívida imensa estavam rotineiras até que, ao receber a visita de um deles, perdeu o controle e matou o sujeito. Ao ser flagrado pela mulher, desesperado, atirou no peito dela e, de quebra, deu cabo do enteado também. Três assassinatos numa mesma noite.

- Esteban? O seu Esteban? – Mirtes não podia acreditar.

- Eu ainda não acabei – revelou a desolada Olga.

Com três cadáveres em casa, Esteban foi até uma ferragem, comprou uma pequena serrilha, retalhou os corpos e comeu todos em uma semana. Depois disso, fez as malas e sumiu do Uruguai.

- Ele retalhou a esposa com uma serrilha?

- Você conhece o Esteban, ele não entende nada de ferramentas.

Quando Esteban chegou em casa, Olga não disse uma palavra. E permaneceu lacônica durante dias. Não podia acreditar que seu marido exemplar, um pai amoroso, um membro querido da comunidade católica tivesse assassinado três pessoas. Talvez isso explicasse sua assiduidade à igreja todo Domingo há 36 anos sem falhar, afinal, levaria uns oitenta anos para rezar todos Pai-Nossos que o padre o penitenciara no confessionário.

Durante o almoço, Olga tinha olhar fixo nos dentes do marido. A boca que ela beijava, que saboreava sua torta fria sorrindo e que recebia a hóstia todo Domingo mastigara carne de gente durante sete dias.

- Me alcance o molho? – pediu Esteban.

- Toma – disse ela jogando o recipiente na mesa e derramando a metade. Esteban colocou panos quentes elogiando a comida. Em vez de agradecer, Olga provocou:

- Você não prefere comer uma panturrilha, Señor Javier La Puerta?

Esteban largou os talheres e baixou a cabeça. Fazia muitos anos que não ouvia aquele nome. Sem alterar o tom, disse que contaria toda a sua história se a mulher prometesse nunca mais tocar no assunto. Mas Olga estava indignada:

- Qual foi a última vez que você se confessou?

- Ora, ora, eu sempre me confesso. Já confessei isso ao padre há quase 40 anos, já me arrependi, está tudo bem.

- Precisava comer as pessoas?

- Qual é o problema? Uns enterram, outros queimam, eu comi.

- E o seu colesterol, Esteban? E o seu colesterol?

 Quarta-feira, Agosto 29, 2007

Câmera lenta

Fechou a porta e ficou com a cara colada nela por alguns segundos. Virou o rosto para David sem saber que seus olhos estavam borrados de lágrimas. Escondia a dor fria no peito com um sorriso imenso e um entusiasmo tão grande quanto frágil. Bradou um bom dia e abriu a persiana para deixar o sol visitar aquele quarto de hospital. Enquanto arrumava o arranjo de camélias brancas na cabeceira da cama, comentou que mesmo acabara de falar com o Dr. Rosenthal e os resultados dos exames eram animadores, as plaquetas já estavam os índices de normalidade.

- Quem você está querendo enganar? – disse David com uma voz bem mais fraca que a agressividade que aquelas palavras continham.

Pega no contrapé, não conseguiu dizer nada. Sentiu-se como uma criança flagrada ao mexer num pote de doces antes do almoço. Em flagrante, é impossível negar. Timidamente, sentou-se na cama aos pés de David. Não sabia mais o que fazer, o que dizer e o que o pensar, então, anestesiou-se ali por alguns minutos. O silêncio foi interrompido pela voz doce de David. Perguntou quanto tempo estava doente. Antes que ela respondesse, deu sua sentença:

- É como cair de um penhasco em câmera lenta. Chega uma hora, que a gente quer chegar ao chão logo de uma vez.

Ela virou o rosto e pela primeira vez sentiu raiva. Como ele poderia ser tão egoísta? Desistir assim, depois de todo seu esforço, abrindo mão da profissão, do marido, de horas e horas de sono, de todo dinheiro gasto no tratamento, dos anos que envelheceu cuidando dele. Ela também se sentia cansada, mas achava que ele não tinha o direito de mudar a ordem natural da cadeia familiar: filhos não devem morrer antes dos pais.

- Desculpe, mãe – foram as únicas palavras que David ainda teve forças para dizer, interrompendo seus pensamentos, e depois nunca mais falar.

 Terça-feira, Julho 10, 2007

O sorriso de Cleópatra

Cleópatra. Foi assim que resolvi denominá-la. Talvez seu nome de verdade fosse Bárbara, Linda, Deusa, porque já conheci uma mulher que se chamava Deusa, ou qualquer outro nome que parecesse um adjetivo, não importa, de qualquer jeito eu nunca conversei com ela. Portanto não sei como se chama. Mas seu cabelo exageradamente negro, com comprimento acima dos ombros, a pele branca e os olhos claros remetiam seu rosto exótico à imagem que eu fazia de Cleópatra. Ou tudo isso não passa de um devaneio poético só porque me chamo Marco Antônio e sempre achei que grandes paixões vem acompanhadas de coincidências absurdas. Enfim...

Todos os dias a Cleópatra está no meu caminho. Quando vou almoçar, no trajeto para o restaurante, sempre atravessamos a mesma faixa de segurança de um cruzamento, porém em sentidos opostos. Eu vou em direção ao Centro, ela, ao bairro. Não faço a menor idéia onde ela vai, se caminha em direção ao almoço ou ao trabalho, só sei que, se eu sair do escritório pontualmente às 11h31 no relógio do meu computador, descer três andares pela escada em vez de tomar o elevador e caminhar no meu ritmo habitual até a esquina, vejo-a do outro lado da rua, aguardando o sinal para atravessar. Não tem erro.

Já fiz tentativas de estabelecer algum contato com ela além dos olhares que cruzamos algumas vezes. Mas ela é jogo duro, quando me vê, fixa as retinas em um ponto fixo qualquer à frente. Já esbarrei o ombro duas vezes, mas ela segue imponente como uma rainha. Ela não pára nunca.

Tudo bem, o relógio marca 11h30 e lá vou fazer mais uma tentativa. Vai que hoje o destino sorri para mim. No horário de sempre, saio do escritório, desço os três andares de escada, atravesso o corredor gelado e ganho a rua. No meu andar habitual, vou em direção à esquina. Batata. Sinal fechado e lá está ela do outro lado. Como sempre, vestida de preto. Até parece uniforme de trabalho. Eventualmente a vejo usando um casaco laranja, com detalhes... peraí um pouquinho. Ela está sorrindo pra alguém, pra mim? Confiro, ao meu lado, há duas pessoas, uma senhora distraída e um jovem executivo fala ao celular segurando um cachorrinho de madame na outra mão. Deve ser pro cachorro que ela sorri. Coloco meu polegar no peito perguntando se é comigo. Mostrando ainda mais os dentes, ela faz que sim com a cabeça. E depois faz sinal pra eu esperar. Digo em gestos que vou até ela, mas ela é definitiva ao mostrar a palma da mão. Tá bom, eu fico e meu coração é quem dispara. Deus é pai. Quem espera sempre alcança. Perseveras e triunfarás. Pronto, acabaram os meus clichês. Pára o trânsito e agora ela caminha na minha direção. E posta-se à minha frente. E sorri:

- Teu zíper está aberto.

 Quarta-feira, Julho 04, 2007

A cozinha maravilhosa do Chef Gordo

O Xis do Gordo está bem longe de ser o melhor do mundo. Até pra chamar de gostoso falta muito. Eu diria que até pra chamar de comida, falta. Mas ele é barato e fim de mês, quando a coisa aperta, o Xis do Gordo é a pedida dos desesperados, catagoria a qual eu me encontro. Pelo menos o cardápio é variado. Tem todos os sabores, desde os clássicos Xis Salada e Xis Egg até extravagâncias como Xis Picanha, embora todo mundo duvide que aquilo seja mesmo carne de rês. O último item do menu do Chef Gordô é o tal Xis Tudo, que acomoda no pãozinho todos os ingredientes da casa. É preciso ter mais que estômago pra encará-lo. É preciso bucho! Uma vez resolvi arriscar e pedi. A curiosidade matou o gato e eu não duvido que ele foi parar no meu lanche. Enquanto aguardava a tampa de bueiro que eu iria almoçar, o atendente, que suava mais que a parede engordurada atrás da chapa quente, veio me perguntar:

- O teu pastel é de carne, de frango ou de queijo?

Não, não, meu amigo. Expliquei praquele chef de cuisine que meu pedido não era pastel, mas o Xis Tudo.

- Eu sei – ele retrucou – mas é que vai um pastel dentro do xis.

Belezura.

 Domingo, Abril 29, 2007

A volta de Oberdan, o zagueiro que marcou Camus

O Estrangeiro, de Albert Camus, é um livro que deve ser lido sob sol intenso. O único problema é que as pessoas só chegam a esta conclusão depois de lê-lo. Oberdan, o quarto-zagueiro filosofal, teve mais sorte. Esta informação lhe caiu no colo após uma conversa informal com um comentarista esportivo depressivo e também amante da literatura. E assim o fez. Aproveitou um dia de folga dos treinamentos, foi à livraria. comprou o livro e, antes de voltar para casa, sentou-se a praça para ler em um só fôlego aquelas cento e poucas páginas.

Acomodou-se num banco. Fugiu da sombra. Lá pela página 40, logo após o senhor Meursault cometer o assassinato, Oberdan sentiu o suor desfilar pelos sulcos da testa. Lembrou que tinha um lenço no bolso da calça. Levou a mão direita lá e com os dedos polegar e maior tentou pescar o desgraçado que escorregara lá para o fundo. A calça jeans pode ter sido uma grande invenção, idealizado como uniforme de trabalho dos mineiros americanos, um ícone da juventude rebelde do século XX, tudo bem, mas todo o brilhantismo usado na sua concepção se perdeu na hora de fazer o bolso. De tão apertado, mal cabe um lenço. Naquela tentativa de alcançá-lo, Oberdan beliscou a coxa. E foi assim, no contra-ataque do beliscão que uma estranha e repentina decepção lhe atravessou o pensamento. Imaginava a perna mais rígida, mais robusta, afinal, mesmo já sendo veterano, tratava-se de um atleta. Seu dedo afundou tão molinho que, por um instante esqueceu a dor que o tecido grosso da calça lhe causava, como se lhe cortasse o entre os dedos. Lembrou certa vez, num aeroporto qualquer, local preferido para leituras rasas, viu numa revista de variedades que todas as células do corpo humano, em especial os tecidos, encontram-se na plenitude do seu desenvolvimento até os vinte e três anos de idade. A partir dali, então, as células entram em franca decadência. Já não se reproduzem com a mesma velocidade, outras apenas morrem. Nem precisou fazer os cálculos. Se for assim, seu prazo de validade já estava vencido há mais de dez anos. Oberdan pensou na finitude das coisas. No irremediável, nas trevas, no breu. O que teria acontecido com o seu organismo à meia-noite daquele 27 de novembro de 1993, dia que completou seu vigésimo terceiro aniversário? Será que esta data marca o dia que suas células ouviram um apito de fábrica e deram o serviço por encerrado? Mas já? Traído pelo próprio organismo, Oberdan suava cada vez mais. A pequena peleja que disputava com seu próprio bolso ainda estava empatada e, em poucos segundos, estava suando mais que numa partida inteira de futebol. Só não sabia se o suor era causado pela tensão do livro, pelo calor do sol, pela dificuldade submetida naquele gesto simplório de pegar o lenço teimoso, ou pelas próprias constatações. Embora cada uma destas razões seja merecedora de cada gota de suor expelida, a verdade é que a combinação dos fatos é que fazem o mundo girar. Para o bem ou para o mal. O destino é feito de combinações.

O nervosismo fez Oberdan, o zagueiro frio e calculista, perder a paciência. Mesmo não tendo a certeza de estar segurando com a pontinha dos dedos o pano do lenço ou do bolso, resolveu puxar de uma vez só. Deu sorte. Num solavanco, resgatou o maldito. Mas a brutalidade do movimento fez seu dedo raspar naquele pequeno e tolo botão de cobre junto ao bolso. Olhou seu dedo ardente. Havia um risco de sangue e uma felpa de pele erguida ao lado da unha. Arrancou essa pele. Mas não jogou fora. Ficou olhando aquele pedacinho dele mesmo e imaginou todas aquelas células morrendo, uma a uma. E pensou: toda morte serve para lembrar que estamos vivos.

 Terça-feira, Abril 24, 2007

Curriculum vite

– Eu nunca transei com um escritor – ela disse com voz doce e olhar de dar dó.

George engoliu a saliva, que desceu feito uma bola de sinuca. Fora pego no contrapé. Nunca ouviu comentário assim quando indagado sobre sua profissão. Já ouviu uns "que legal", uns "nossa, deve ser difícil" e até uma vez teve um "sério, perguntei o que você faz".

– É me-mesmo? – foi a única coisa que saiu da sua boca. Definitivamente ele era bem melhor na escrita do que na fala.

Ela confirmou, e disse mais, já havia transado com engenheiro civil, com ortodontista, com empresário do ramo têxtil, com um pintor de retratos e com um pintor de paredes também. Uma vez ela deu pra um ator da Globo, mas não disse o nome. E que teve relações com um pneumologista, um alergista e um farmacêutico, todos ao mesmo tempo, numa convenção em São Paulo. Desde aquele dia nunca mais espirrou de manhã. Mas ela já foi pra cama com jornalista, historiador, filósofo e alguns professores secundaristas numa fase que ela só dava pro pessoal das Humanas. Segundo ela, os piores são os advogados, que se fazem muito bem nos tribunais, porém entre quatro paredes, não têm defesa. Já as advogadas, revelou serem uma grata surpresa. Assim como ficou surpresa ao realizar as fantasias com um deputado, pois imaginava que o pessoal da Câmara jamais transava, o que explicaria as mazelas do país. E a lista não parava aí: arquitetos, publicitários, jogadores de basquete, comerciantes, psiquiatras, economistas, fotógrafos, radiologistas, veterinários, arqueólogos, artesãos, estilistas, oftalmologistas, quiroprata, sapateiros, cabeleireiros, seguranças de shopping, fisioterapuetas, garçons, protéticos, enfim, o currículo era imenso, mas escritor, nunca. Nunquinha da silva.

– Nu-nunquinha? – perguntou George, meio vesgo, espumando igual cachorro que mordeu um sapo ou criança que bebeu xampu.

– Tsc-tsc – ela sublinhou fazendo biquinho e aquele som que parece um duplo beijinho seco.

George pulou em cima dela, que de imediato o alavancou para cima com a perna direita num golpe marcial que lhe deixou estatelado de costas no chão. Valeria um ippon se estivesse nas Olimpíadas.

– Tá pensando que eu sou uma vagabunda? – ela pegou a bolsa e partiu de cabeça pra baixo aos olhos de George. Ah, faltou dizer que havia namorado um lutador de judô também.

 Sexta-feira, Abril 20, 2007

O revisor

O rádio-relógio me desperta no AM.
Olho de novo pra ter certeza que é comigo que ele está falando.
Levo meia hora para levantar.
Não arrumo a cama.
Banho quente para acordar e tirar as remelas.
Banho fria no meio do meu banho quente.
Pego o casaco e passo a chave dobermann em todas fechaduras da porta.
No corredor, passo pela vizinha do 702.
Não sei o nome dela, sei que ela tem peitos descomunais.
Eu casaria com esses peitos. Passaria a vida olhando pra eles.
Ela dá bom dia sorridente.
Sou mau humorado de manhã, mas começar o dia com esses peitos levanta o astral de qualquer um.
Tenho vontade de enfiar a cara neles.
Dou bom dia para os peitos.
Ela me flagra e finge pudor fechando o botão da blusa.
Mas não fecha, apenas dá as costas e segue seu caminho.
Eu sigo o meu, que é a padaria.
Entro e vou direto ao balcão dos lanches e confeitos.
Nem preciso fazer pedir, a mocinha sabe o que eu quero.
Todos dias tomo café ali.
O café é uma bosta, mas ela é linda.
Se fosse melhor cuidada, estaria em qualquer novela da TV.
Eu cuidaria dela pra sempre se casasse comigo.
Nada que um banho de loja, um corte de cabelo e um lápis no olho não resolvam.
Me sinto veado falando em lápis no olho.
Engasgo com café.
Ela acha graça, então valeu a pena.
Digo que ela está bonita hoje.
Hoje não, sempre.
Ela ri e pergunta se tenho outros clichês.
Velhas cantadas, velhos foras.
Deixo o dinheiro contado no balcão e saio se dizer tchau.
Ela grita até amanhã.
Ela me ganha.
Caminho até o trabalho fechado no meu casaco.
O vento gelado dói na minha cara.
Gosto disso.
Uma pilha de papéis do tamanho do Pico da Neblina me espera sobre a mesa.
Picas, penso.
Abro a gaveta, pego o dicionário e as três gramáticas e começo a trabalhar.
Lá pela página 20, a mocinha traz mais papéis.
Ela diz pra eu parar o que estou fazendo pois a revisão deste agora é prioridade.
Resmungo, mesmo sabendo que ela não tem culpa de nada.
Ela é pau-mandado.
Ela podia fazer a alegria do meu pau, penso.
Ela junto um clipe no chão e deixa à mostra o reguinho da bunda.
Aquele cofrinho prende meu olho.
Olho do cu, associo.
Volto pro planeta Terra e começo a revisão.
O texto é bom, ágil, acho que terei pouco serviço com ele.
O cofrinho dela não sai da minha cabeça.
Eu faria depósitos naquela poupança todos os dias se ela casasse comigo.
O trabalho não rende.
Não vou vencer o prazo.
Foda-se, só respeito prazos respeitáveis.
Melhor almoçar aqui mesmo.
Tele-entrega de xis.
Tele-entrega ou telentrega?
Eu deveria saber isso.
Procuro nas gramáticas enquanto o xis não vem.
Elas me dizem tele-entrega.
O dicionário diz que é tudo junto.
Ninguém me diz nada.
O xis é menor que a minha fome.
De longe, fico olhando a guria do cofrinho.
Melhor concentrar no trabalho.
O trabalho dignifica o homem.
Danifica, corrijo.
A tarde custa a passar.
Bebo muito café, bem mais gostoso que o da gostosa da padaria.
O relógio anda pra trás, mas chega às dezenove.
Abro a gaveta, devolvo as gramáticas e pego minha carteira.
Vou pra casa a pé.
Faço sempre o mesmo trajeto, saio sempre na mesma hora, caminho sempre na mesma velocidade.
Assim não tem erro, sempre vejo a moreninha na parada do ônibus.
Ela pega o 174, que passa às dezenove e quinze.
O que ela tem de baixinha, tem de bonita.
É tão baixinha que não encosta os pés no chão sentada no banco.
O pé dela é uma graça.
Tem as unhas quadradinhas e sempre pintadas.
Os dedos são tão pequenos que quando pinta de preto parecem feijõesinhos.
Deve calçar 33.
Sou louco por pé e tenho 33, junto as peças.
Ela é perfeita, é a mulher da minha vida.
Se bem que no fim do ano faço 34 e o pé dela continua do mesmo tamanho.
Igual a todos os dias, o 174 chega e a leva pra longe de mim.
171, trocadilho, do verbo trocadilhar.
Antes de chegar em casa, pego um DVD na locadora.
Tenembaums, já vi, tô afim de ver de novo.
Peço comida chinesa pelo telefone.
Zapeio a TV até decidir olhar o DVD.
Assisto os extras e o sono não vem.
Vou pra minha cama desarrumada.
Penso na vizinha do 702, na gostosa da padaria, na guria do cofrinho, na moreninha da parada, na garota da locadora, na contadora da editora, na ilustradora infantil, na balconista da Renner, na mulher do Marcos, na do Glauco também, na Gwyneth Paltrow e na Nara.
Havia um tempo que eu achava vantagem uma cama enorme.
Reviso meu dia.
Há muito o que corrigir.
Fica pra amanhã.

 Sábado, Abril 07, 2007

Crise

Estou em crise. Bloqueio criativo. Talvez por estar me dedicando mais aos roteiros neste momento, tanto de cinema quanto para teatro, o fato é que o poço anda seco de contos. Quem sabe transcrever um texto do meu maestro soberano traga um pouco de inspiração, que eu sinto, está chegando. Um dia eu ainda vou escrever assim:


Eu era um jovem louro e saudável quando adentrei a baía de Guanabara, errei pelas ruas do Rio de Janeiro e conheci Teresa. Ao ouvir cantar Teresa, caí de amores pelo seu idioma, e após três meses embatucado, senti que tinha a história do alemão na ponta dos dedos. A escrita me saía espontânea, num ritmo que não era o meu, e foi na batata da perna de Teresa que escrevi as primeiras palavras na língua nativa. No princípio ela até gostou, ficou lisonjeada quando lhe disse que estava escrevendo um livro nela. Depois deu pra ter ciúme, deu pra me recusar seu corpo, disse que eu só a procurava a fim de escrever nela, e o livro já ia pelo sétimo capítulo quando ela me abandonou. Sem ela, perdi o fio do novelo, voltei ao prefácio, meu conhecimento da língua regrediu, pensei até em largar tudo e ir embora para Hamburgo. Passava os dias catatônico diante de uma folha de papel em branco, eu tinha me viciado em Teresa. Experimentei escrever alguma coisa em mim mesmo, mas não era tão bom, então fui a Copacabana procurar as putas. Pagava pra escrever nelas e talvez lhes pagasse além do devido, pois elas simulavam orgasmos que me roubavam toda a concentração. Toquei na casa de Teresa, estava casada, chorei, ela me deu a mão, permitiu que eu escrevesse umas breves palavras enquanto o marido não vinha. Passei a assediar as estudantes, que às vezes me deixavam escrever nas suas blusas, depois na dobra do braço, onde sentiam cócegas, depois na saia, nas coxas. E elas mostravam esses escritos às colegas, que muito os apreciavam, e subiam ao meu apartamento e me pediam que escrevesse o livro na cara delas, no pescoço, depois despiam a blusa e me ofereciam os seios, a barriga e as costas. E davam a ler meus escritos a novas colegas, que subiam ao meu apartamento e me imploravam para arrancar as suas calcinhas, e o negro das minhas letras reluzia em suas nádegas rosadas. Moças entravam e saíam da minha vida, e o meu livro se dispersava por aí, cada capítulo a voar para um lado. Foi quando apareceu aquela que se deitou na minha cama e me ensinou a escrever de trás pra diante. Zelosa dos meus escritos, só ela os sabia ler, mirando-se no espelho, e de noite apagava o que de dia fora escrito, para que eu jamais cessasse de escrever meu livro nela. E engravidou de mim, e na sua barriga o livro foi ganhando novas formas, e foram dias e noites sem pausa, sem comer um sanduíche, trancado no quartinho da agência, até que eu cunhasse, no limite das forças, a frase final: e a mulher amada, cujo leite eu já sorvera, me fez beber da água com que havia lavado sua blusa.
(Budapeste, pág. 38, 39 e 40, Chico Buarque)

 Terça-feira, Dezembro 12, 2006

A Carona

Quando meu avô se aposentou, aos 60 anos, decidiu viver os últimos anos em uma chácara a uns 30 quilômetros da cidade. Desde então nunca mais teve contato com a vida urbana. Nem para ir ao médico, nem para buscar a aposentadoria. Estes últimos anos não foram poucos. A festa de 80 anos dele, por exemplo, foi comemorada lá, obviamente.

Fui o último a deixar a chácara. Ajudei a recolher as garrafas, arrumar as cadeiras, soltar os cachorros e ainda fizemos um brinde de champanha na saideira. Nem bem engatei a segunda marcha do carro e a Marianne já caiu no sono. Nem os buracos daquela estrada de chão batido impediam que ela dormisse. Como chovera no dia anterior, as condições estavam piores.

Fazíamos um trajeto sinuoso mesmo na rua reta e na metade da velocidade habitual, já que a única iluminação que não fosse dos faróis vinha da lua cheia. Mesmo com todos solavancos, Marianne só foi despertar quando ouviu eu balbuciar:

- Que é aquilo?

Havia um vulto no meio da estrada. A medida que nos aproximamos, revelamos ser uma pessoa. Marianne sugeriu que eu acelerasse. Mas ao ver que era uma mulher, ela disse que poderia precisar de ajuda. Sem dúvida. Diminuí a velocidade pois a bruma atrapalhava a visão. A mulher, que parecia ter quase 50 anos, trajava um vestido longo e sujo de barro, inclusive nos pés descalços. Claudicando, parecia vir de uma festa mais chique que a do meu avô. Estava machucada. Quando chegou à janela, percebi algum sangue na roupa, mãos esfoladas e na testa, um pouco acima do supercílio cortado havia um pequeno afundamento que eu fiz questão de desviar o olhar. Com voz chorosa, ela pedia ajuda.

- A Margherit! Ela ainda está no carro, precisa tirar ela de lá. Rápido.

Não gosto de bancar o herói, mas às três horas da manhã em uma estrada absolutamente precária e isolada, dar as costas seria, no mínimo, desumano. Marianne tratou de ampará-la enquanto eu tentava fazer ligações. Celular sem sinal. Era nítido que ela sofrera um acidente e eu tentei extrair o máximo de informações para agilizar a situação.

- Onde está o carro?

- Capotou lá em baixo.

- Lá onde?

- Pra lá – respondeu sem ao menos apontar a direção.

- Qual é o seu nome, senhora?

- Margherit. Precisa tirar ela de lá agora, pelo amor de deus.

Percebi que nada adiantaria interrogá-la. Essa mulher bateu a cabeça na direção ou no vidro do carro. O afundamento na testa e as respostas confusas eram as provas disso. Disse, então, que socorreríamos Margherit se ela indicasse o caminho. Ela entrou no carro com dificuldade e sentou no banco de trás. Marianne sentou atrás também para segurar sua mão. Andamos 10 minutos quando ela mandou parar.

- É aqui. Atrás daquela árvore. Lá embaixo.

Apontei o farol do carro para a árvore, que estava lascada. É provável que o carro tenha batido ali. Descemos do carro e juntos fomos até a árvore. Havia uma pequena ribanceira e, a uns 20 metros, estava o veículo acidentado. Como a descida era íngrime, ordenei que as duas me esperassem. Logo avistei Margherit no banco do motorista, deitada sobre a direção. Abri a porta do carro e o corpo despencou para fora, caindo aos meus pés. Imediatamente olhei para a árvove. Marianne estava sozinha. Margherit era a mulher para quem eu dera carona, a morta.

 Segunda-feira, Dezembro 11, 2006

O Abreu

O Abreu acorda como um canário. Pula da cama cantando, abre as cortinas para deixar o sol entrar e enche a mulher de beijos. Nem parece o Abreu dos últimos meses.

Tudo começou há meio ano, durante uma daquelas rápidas reuniões de corredor. O Renato Peixoto, colega de escritório, enquanto falava das petições mais urgentes do dia, o chamou quando viu passar:

- Abreu?

- Pois não.

O Renato deve ter esquecido o assunto, ou encantou-se com a rima.

- Teu cu é meu.

Gargalhadas generalizadas. Especialmente dos chatos de plantão, que sentiram-se no direito de adotar a infâmia.

Diferente de todos os dias, o escabreado Abreu desce as escadas da sua casa com toda calma do mundo e um sorriso no rosto. Toma um café em família e lê toda seção de esportes do jornal. Até o cachorro o desconhece. Abreu decidiu que hoje ele não precisa correr. Para hoje, só há um compromisso: encontrar o Renato.

A vida do Abreu tinha virado um inferno após o fatídico episódio do corredor. Todo mundo repetia a piada, mais de uma vez por dia. Telefone para o Abreu.

- Aqui é Abreu.

- Teu cu é meu.

E não parou mais. Bilhetinhos, e-mails, mensagens de celular, processos e documentos com o recado anexado, até no vidro sujo do carro escreviam com o dedo. Gente que ele nunca vira na vida passava por ele no fórum, nos parques, na rua, o chamava. O nome que herdara do pai parecia uma maldição. E não havia solução para o caso, pois seu primeiro nome era Alceu e nunca tivera um apelido. Houve uma vez que o sistema de som do aeroporto o chamou:

- Senhor Abreu, favor comparecer ao balcão de informações da Infraero. – Ao chegar lá, havia um envelope lacrado. Dentro, um papel escrito "teu cu é meu".

O dia estava tão bonito que Abreu decidiu ir a pé ao trabalho. Além do ar puro e do exercício improvisado, ele assim teria mais tempo para repassar seu plano de vingança.

Abreu notou que estava escravizado por uma piada tola e infantil. Deixava de atender telefonema até dos filhos por medo de identificar-se. Não ia mais a restaurantes, tinha pavor do que poderia acontecer numa audiência. Chegava a ter pesadelos com juízes o chamando diante do tribunal.

- Aproxime-se, Dr. Abreu.

- Pois não, meritíssimo.

- Vosso cu é meu. – E acordava suado com seu próprio grito.

Já suportou o que tinha para suportar. Todos os limites já foram ultrapassados. Para dar um basta naquilo tudo, Abreu estava disposto até investir seu ordenado. Contratou uma agência de propaganda. Carregado de constrangimento, explicou a situação e pediu para que os publicitários criassem uma frase, um bordão, algo como um slogan que rimasse com Renato. Para a equipe de criação a tarefa até que foi divertida. Quando na vida se tem a oportunidade de criar um xingamento e ainda ser pago por isso? Dentre as várias opções sugeridas, acabou escolhendo "Renato, vai dar o cu no mato". Elegeu esta a resposta perfeita. Aquela que o recolocaria entre os grandes, entre os homens de verdade, entre os respeitáveis. Talvez tirasse a palavra cu, pois não fazia muito o seu estilo, no entanto, ela tem seu valor. Se tem. O Abreu, mais do que ninguém, sabe disso. Aliás, ele pagou uma nota preta pelo slogan, mas era o preço da honra e do seu sono tranqüilo de volta.

Abreu chega assoviando ao prédio e assoviando sobe o elevador. Entra no escritório e vai direto à mesa do Renato. Quer acabar com isso de uma vez por todas. Frustra-se ao ver a cadeira vazia. Pergunta pelo colega. Alguém grita que está na sala de reuniões com os clientes da multinacional. Aquilo não estava previsto, mas soa melhor que a encomenda. Passaria a ser um vexame em proporções internacionais. Nada mal. Resolve dirigir-se para lá. Atravessa o corredor, o mesmo onde tudo começou. Parece mais comprido hoje. Enquanto caminha, repete para dentro a frase que deve ser dita. Gira a maçaneta. Abre a porta. Interrompe a reunião.

- Renato.

- Sim.

Todos param. Canetas são largadas na mesa e o silêncio toma o ambiente. Aguardam o que ele tem a dizer. Todos os olhos, inclusive os orientais, percebem a pálpebra esquerda de Abreu tremendo e a bochecha do mesmo lado contrair. Ele sente a boca seca e as costas molharem de suor. A testa franze. A mandíbula enrijece como uma cãibra. Da boca escancarada custa a sair alguma coisa, mas sai:

- Vão pra puta que os pariu!

 Sexta-feira, Novembro 17, 2006

Vingança

O Camelot Inn é um lugar elegantíssimo. Qualquer dia desses, você deveria ir lá assistir a um campeonato de relinchos. Reduto de beberrões, antro de fracassados, uma pocilga onde a paisagem é composta de caminhoneiros degradantes, prostitutas decadentes, cornos e Hemingways de araque. Pois é no palco deste point de perdedores que se apresentam os melhores espetáculos de quinta categoria da região. Gordas fazem strip-tease, comediantes seguidamente são espancados e houve até um mágico que fez um cliente sumir para sempre no número de desaparecimento.

Os únicos artistas contratados da casa são Dalva e Ademar. Ela é crooner e ele, pianista. São as estrelas da noite. O último degrau de decência do Camelot Inn. Há anos, todos os dias apresentam o mesmo repertório. Menos ontem. Ontem, eles resolveram inovar.

De trás das cortinas, surgiu a cambaleante Dalva. Seu vestido de cetim vermelho, tão tradicional quanto seus acessórios: bituca de cigarro numa mão e copo de uísque na outra. Com a pompa de um lord britânico, Ademar postou-se ao piano. Ajustou as abas do fraque puído. Estalou os dedos e deu o tom: Fá Maior. Dalva não esperou os primeiros acordes:

- Eu gostei tanto, tanto, quando me contaram, que lhe encontraram chorando e bebendo na mesa de um bar...

Foi quando aconteceu. Ela deixou a letra de Lupicínio para dirigir os mais baixos impropérios ao seu pianista. Adjetivos como canalha, cachorro e cafajeste vieram acompanhados de maço de cigarros, isqueiro e gelo do uísque. Só não atirou o copo porque ainda estava cheio. Ademar permaneceu impassível ao piano, tocando como se nada estivesse acontecendo, embora o isqueiro o atingisse na têmpora.

- Ô, Dolores – Dalva era nome artístico – o que houve entre a gente foi só uma aventura.

- Como você pode chamar de aventura um caso de 16 anos?

- O que eu posso fazer? Ela é minha esposa – e após ser categórico, completou – mas vou te dizer, no fundo o meu coração é todo teu.

Dalva riu de raiva. Carregada de trago e ironia, perguntou se era verdade. Ademar concordou de bate-pronto. E ainda deu como exemplo o rocambole de carne que ela fazia:

- É o melhor do mundo.

- É pra isso que eu sirvo? - Depois de enumerar todos os serviços domésticos prestados, incluindo lavar cuecas, Dalva foi além: - Essa mulher faz alguma coisa cama que eu não faço?

O seleto público se manifestou. Assovios, vaias e um distinto cavalheiro que alegava ser a solução dos problemas da Dalva, devido aos dotes físicos avantajados que possuía, digamos assim. Pela primeira vez, Ademar levantou a voz:

- Calem a boca, seus bugres. - Voltou-se para Dalva e baixou o volume – Ela faz espacato. Uma abertura de pernas que é coisa de louco, mas Dô, no fundo o meu coração é todo teu.

Dalva bebeu todo uísque em um gole e atirou o copo em Ademar. Ele esquivou-se, mas errou a nota.

- Porra, Dolores, errei aqui.

Ela retomou os xingamentos, desta vez com covarde, crápula e calhorda. No balcão do bar, alguém atento resolveu se divertir com a desgraça alheia:

- Você só sabe xingar com a letra C?

Ademar, agora aos berros, mandou mais uma vez os bagaceiros calarem a boca, mas perdeu a briga para o espertinho:

- E você só sabe com a letra B?

Risos generalizados. Ademar até pensou em chamar aquele sujeito de bicha, mas logo se deu conta que isso daria razão ao adversário.

Dalva e suas catorze doses de uísque caminharam na diagonal até cair sobre o piano. Ela puxou Ademar num cara-a-cara segurando sua gravata e o plastrão. Com a língua para fora e piscando o olho esquerdo, vomitou um clichê e vários perdigotos:

- O que ela tem que eu não tenho?

- Grana, Dô, muita grana, mas no fundo o meu coração é todinho teu.

Publicado no livro: Contos de Oficina 33 - Editora Nova Prova (Set/2004)

Fragmentos Extraídos do Diário Secreto de Gabriel Daudt - 4

(28 de Março de 2004)

Outro pesadelo horrível. Este foi um dos piores. Eu estava num restaurante francês chiquérrimo, jantando com a Nicole Kidman de "De Olhos Bem Fechados". Ela estava glamourosa e as chances de rolar sexo eram de 99%. Pedi Entrecot ao Molho Rechelier regado a vinho francês. Ao trazer o couvert, o garçom disse que minha mãe me aguardava na porta. Ela trazia meu lanche que esqueci em casa quando fui pro colégio. Pão com manteiga, salame italiano e queijo. Humilhação. Nicole não disse uma palavra, apenas levantou e saiu. Eu vi que ela estava furiosa. No lugar dela surgiu o Paulo Nunes, que ficou correndo em volta da mesa fazendo aviãozinho.

 Quinta-feira, Novembro 09, 2006

O paraninfo

Em 1993 fiz parte do grêmio estudantil da escola, no departamento de cultura, organizando festivais de criatividade, saraus de leitura, cursos de teatro e outras coisas bacanas. Talvez por isso, pela proximidade que ocorreu com alunos de todas as turmas, ou um por daqueles fatos que acontecem na vida e a gente não consegue explicar, fui convidado pela turma 81, da 8ª série, para dizer-lhes algumas palavras na sua formatura do 1º grau. O que mais me alegrou no convite foi o fato de tê-lo recebido em agosto, assim eu teria bastante tempo para deixar meu bigode crescer. Acho que aparência de maturidade e respeito era o que aqueles pré-adolescentes precisavam.

Depois desses quase cinco meses de muita persistência, disciplina e comentários do tipo "O que é isso embaixo do seu nariz? Um insepto?" ou ainda "Sua boca está suja, quer um guardanapo?", finalmente chegou o grande dia. Penteei a rala penugem que havia cultivado no rosto e fiz meu discurso vigoroso que tinha como tema a importância da perseverança na condição humana:

"Excelentíssima senhora diretora da Escola Normal Santa Catarina, senhores ministros, senhores decanos, demais presentes à mesa, senhores pais, amigos e queridos colegas.

Durante todos estes anos estudantis atravessando os amplos corredores da nossa escola, presenciamos grandes transformações mundiais. Principalmente no meu rosto. As primeiras eleições diretas no país sepultaram uma ditadura falida. O primeiro impeachment presidencial da história política internacional, aqui no Brasil, não nos orgulha, mas nos dignifica. A queda do Muro de Berlim, que derruba uma ideologia para erguer muitas outras. Enfim, tudo isso aconteceu diante dos nossos olhos, de baixo dos seus narizes e do meu bigode.

Neste momento em que vocês, jovens, estão lançando a rede de seus conhecimentos nas desconhecidas águas do futuro, é importante estarem preparados para aquilo que virá. Um povo que não conhece sua história tende a repeti-la e novos acontecimentos virão transformando a realidade todos os dias. Vocês não poderão perder o fio da meada. Eu nunca perdi, estão todos aqui comigo, no meu semblante. (Observação: puxar os fios do canto da boca, caso eles não entendam)

Sei que muitos estão confusos, ansiosos e angustiados, buscando respostas para perguntas que ainda não foram feitas. Tenho ciência que neste momento um turbilhão de questionamentos passam por suas mentes. Perguntem a si mesmos: por que um bigode? Por que não um cavanhaque, ou uma barba vistosa, ou ainda duas grandes e chocantes costeletas? Pois eu vos digo: a vida é feita de escolhas e nós somos o resultado delas. Esta foi uma opção. O mesmo tipo de opção que vocês deverão fazer em breve nas suas vidas. Num futuro próximo, espero nos reunirmos aqui, onde estarão médicos, advogados, cientistas, artistas e, por que não, barbeiros.

Sejamos objetivos. Não vim aqui dizer adeus, ou um até logo. Vim dizer-lhes esta noite que, certamente, os pêlos da face não são a resposta para todos os problemas do mundo, mas deve-se começar de alguma maneira. Obrigado."

 Terça-feira, Outubro 31, 2006

Tempos Modernos

A notícia caiu como uma bomba. Se o garoto tivesse uma biografia, digamos assim, delinqüente, vá lá, seria de se esperar. Mas não. Então, por que diabos os pais foram chamados a comparecer ao Serviço de Orientação Educacional da escola? A possibilidade de desconhecer a identidade secreta do filho angustiava tanto o pai quanto a mãe.

Combinaram de se encontrar na frente da escola dez para às onze, visto que a reunião estava marcada para às onze horas. Chegaram antes do combinado.
Não era a primeira vez que entravam naquela escola. Ambos estudaram o 1º Grau lá e parecia que o tempo havia parado nos anos 50. Em 1974 eles já achavam tudo aquilo muito velho. Agora, então.

Colégio de freiras. Ambiente frio. Era possível lamber o piso exageradamente limpo. Cheiro de desinfetante impreganava as narinas. Os corredores, pouco iluminados, tinham paredes e paredes de azulejos verde-claro intoleráveis. Lembrava corredor de bloco cirúrgico. Ou um corredor da morte. Sem dúvida, o lugar não era convidativo ao estudo e as peças começavam a se encaixar.

Entraram na sala do SOE. Móveis muito antigos, mas também muito conservados. Uma mesa enorme transformada em escrivaninha logo ao lado da porta. Atrás, uma cristaleira de mogno escurecido havia se tornado uma biblioteca. Na parede alta, um crussifixo enorme onde os olhos de Cristo pareciam acompanhá-los em direção ao sofá de couro no fundo da sala. A psicopedagoga responsável pelo setor oferece um chá, recusado pelos dois, e indaga:

- Bom, vocês sabem por que estão aqui?

Não é a resposta, absolutamente sincera e apreensiva, uma vez que também supunham haver algo de errado com o filho.

- Exatamente – diz a educadora num suspiro profundo. Com voz doce para não alterá-los, ela explica que o filho não apresenta um comportamento comum aos adolescentes de hoje. Ele estava se isolando dos colegas mais populares. Passava os recreios na biblioteca.

- Mas qual é o problema, afinal? – alterou-se o pai.

Ela deixou de lado os eufemismos e foi direto ao ponto:

- O filho de vocês é educado.

Perplexidade e decepção se misturaram. O silêncio foi interrompido quando ela voltou a falar:

- Ele é educado, respeita os professores, os colegas, é interessado nas aulas. Achamos que pode haver alguma coisa errada em casa.

- Algum problema na sua casa? - o pai questiona a mãe.

- Vocês não moram juntos? – pergunta a educadora.

- Não – diz a mãe – separamos há cinco anos, não nos víamos há meses.
Isso tornava o mistério maior ainda. Se fosse uma família feliz, estruturada, rica, mas não, era uma família destroçada igual às outras. Os pais, tão logo, iniciaram uma bateria de perguntas:

- Ele é lacônico? – perguntou o pai.
- Não, bastante participativo nas aulas. – respondeu a professora.
- Gazeteiro?
- As vezes que gazeou foi pego na biblioteca estudando.
- É arrogante com os colegas?
- Não, quando pode, até ajuda com os deveres.
- Ele não berra nos corredores?
- Não.
- Dá pra aproveitar alguma coisa da conversa dele?
- Ele tem umas opiniões bem interessantes sobre Gabriel Garcia Marquez.
- Ele não baixa a cintura das calças até a bunda pra mostrar a cueca?
- Ele faz isso na sua casa?

Definitivamente, isso não era normal. Um adolescente civilizado? Querido? Prestativo? Informado e com noção do ridículo? Começaram a trocar acusações mútuas. A mãe alegava ter puxado o pai, que havia sido sensato até na hora da separação. Já ele botava a culpa nos livros que a mãe sempre presenteava o garoto. E por aí foi: curso de línguas, aulas de tênis, idas ao teatro.

- Você conversa demais com ele, esse é que é o problema – disse a mãe com dedo na cara do ex-marido.

Já passava do meio-dia quando a psicopedagoga ameaçou chamar o garoto para colocar ordem naquele pequeno furdunço doméstico. Se acalmaram. Compreenderam que, nada adiantava eleger culpados neste momento. Era fundamental tomar uma atitude diante dos fatos.

- Teremos uma conversa bem séria – disse o pai em tom definitivo – De homem para homem. Meu filho não tem noção do perigo que é ser uma pessoa correta neste país.

 Domingo, Outubro 22, 2006

Lennon & McCartney

Londres, 28 de setembro de 1963. Quarto de hotel, 2h32 da madrugada.

- Eu acho que nós somos melhores que Jesus Cristo.
- O quê???
- Eu acho que somos melhores que Jesus Cristo.
- Jesus Cristo não tocava rock'n roll, John.
- Tá bom, então, o que eu quero dizer é que somos maiores que Jesus Cristo.
- Diabos, de onde você tirou isso agora?
- Paul, faça um comparativo entre a população daquela época e a atual. E tem mais: a imprensa. Rádio, televisão, jornais, tudo está a nosso favor. E tem outro detalhe que você tem que considerar...
- O quê?
- Tem muita gente que não acredita em Jesus.
- Quem?
- Judeus, por exemplo.
- Espere um pouco. Judeus não negam a existência de Cristo. Eles só acham que não é ele o Messias.
- Tem certeza disso?
- Não, eu não sou judeu.
- E tem os agnósticos. Mas este não é o ponto. O ponto é que ninguém pode negar que os Beatles existem. E por isso somos mais populares que o magrão.
- Magrão? Você chamou Jesus Cristo de magrão? Céus, o que está acontecendo? Eu vou falar com o Brian, ele vai ter de suspender a maconha.
- Paul, pense bem. Nós somos os maiores caras do mundo e seremos por muito tempo. Imagine, daqui há uns 30 anos as pessoas vão nos reconhecer como os reis do rock em qualquer palco desse planeta.
- O rei do rock é o Elvis.
- Mas ele é um só. E completamente louco. Vai sumir do mapa qualquer hora dessas. E aí acabou. Os Beatles serão os Beatles mesmo que um de nós saia. Por falar nisso, o que você acha do George?
- Eu não entendo onde você está querendo chegar. George?
- Deixe o George pra depois. Eu acho que nós estamos num patamar em que qualquer merda que a gente tocar vai ser sucesso.
- Não sei de onde você tira tanta certeza. Até agora nós só temos apenas oito compactos gravados e um Long Play. As coisas vão bem, mas...
- Você acha pouco?
- O que te dá essa confiança?
- Eu sei e isso me basta.
- Claro, você e seu ego. Eu inda não sei onde você quer chegar e estou com medo desse seu olhar semicerrado.
- Vamos fazer uma música bem babaca. Boba, mesmo. Uma letra infantil, rimas fáceis e acordes primários.
- Já ultrapassamos essa fase. Pra quê fazer isso?
- Pra eu te provar que estou certo.
- Meu Deus, quantos anos você tem? Seis?
- Não tem como dar errado, Paul.
- Náh, vamos fazer aquela música que eu comentei outro dia. Pensei em chamá-la Yesterday.
- Yesterday? Coisa mais retrógrada.
- John, nós lutamos muito pra chegar aqui. Tivemos que tocar naqueles bueiros de Hamburgo. Não vamos estragar tudo por causa de uma viagem egocêntrica da sua cabeça.
- Paul, nós já estamos feitos na vida. Fizemos um contrato milionário, estamos comendo tudo quanto é mulher. Vamos nos divertir um pouco mais.
- Me dá um cigarro - Paul acende o cigarro, dá uma tragada profunda enquanto pensa - tá bem, às vezes você me cansa, sabe? Vamos escrever a droga letra. Até já tenho uma idéia. Vamos mostrar para o Brian e pro Seu Martin. Por Cristo, o velho vai ficar uma fera.
- Hehehe. Vai mesmo.
- E tem mais uma coisa... eu não canto essa merda.
- Tudo bem, eu estava mesmo pensando em botar o Ringo pra cantar.
- Filho da... John, o que você tem na cabeça?
- Vai ser um horror. Mas vai dar certo. Será um sucesso e vai vender, escuta o que estou te dizendo. Você disse que tinha uma idéia?
- Ainda vou me arrepender disto. Enquanto você falava me ocorreu essa frase: I wanna be your lover baby, I wanna be your man.
- Senhor Paul McCartney, o senhor ainda será condecorado como cavaleiro da ordem britânica um dia. É disso mesmo que eu estava falando.Vamos repetir isso o tempo todo. I wanna o que é mesmo?
- Meu Deus.
- Alcança o violão aí, meu.

Sob protestos generalizados, especialmente de Brian Epstein e de George Martin, a música I Wanna Be Your Man acabou sendo gravada no LP With The Beatles, em novembro de 1963. Como tantas outras, fez estrondoso sucesso. Não chegou a ser um Hit Number One, mas é inegável o seu êxito radiofônico. Talvez as provocações de Lennon sejam a única explicação para uma banda que compôs obras-primas como Across The Universe, The Long And Widing Road e Strawberry Fields Forever também tenha composto melindres como I Wanna Be Your Man e Obladi-Oblada. Enfim, após a primeira execução ao vivo de I Wanna Be Your Man, no backstage, John lembrou aquela conversa com Paul.

- Eu não te disse? Eles amaram.
- Convenhamos, John, a canção não ficou ruim.
- Cai fora, você só pode estar brincando. É tenebroso!
- E achei que o Ringo não foi mal, também. Não desafinou, alcançou uma oitava.
- Então vamos fazer outra pior.
- Não! Basta dessa história toda. Estou convencido, você venceu! Fizemos uma porcaria e eles gostaram. Ponto final.
- É mais que isso, Paul. Nós somos maiores que Jesus Cristo!
- John, agora é sério! Vou te dizer uma vez só e quero que entenda: você pode até pensar isso e eu respeito a sua opinião. Mas fique na sua e, pelo amor de Deus, nunca diga isso para alguém da imprensa. Nunca!
- Okay.

 Sexta-feira, Outubro 20, 2006

Fragmentos Extraídos do Diário Secreto de Gabriel Daudt - 3

(3 de Fevereiro de 2004)

Os dias estão longos mas a semana passa depressa. Não entendo como isso pode acontecer. Não volto mais à agência onde eu estava trabalhando. Depois do que fizeram comigo, me nego. Eles me demitiram. Esta é uma boa razão para eu nunca mais botar os pés naquele lugar.

Com a palavra, Oberdan, o zagueiro naurastênico

Se você pegar um livro de biologia do primeiro grau, vai ver que nos ensinam que o homem é setenta por cento água. Pois eu acho que não vou segurar o movimento da minha maré.

Quero deixar bem claro que não tenho nada contra a instituição São Paulo Futebol Clube. Se o São Paulo é o que é, talvez seja porque é um clube sério, paga em dia, oferece ótimas condições de trabalho, além de ser meu time do coração. Só que meu contrato expirou ontem e os filhos da puta não querem renovar. Eles devem ter razão. Eu tenho trinta e cinco anos, faço trinta e seis em julho. Destes, dezoito dediquei ao clube. Nunca me transferi para outro time porque eu não queria mudar cidade nem de psicanalista. Logo, diferente de tantos, não enriqueci com o futebol. E agora os filhos da puta não querem renovar meu contrato porque eu estou acima do peso. Desculpa esfarrapada. Eu sei que é por causa da minha idade.

Nunca fiquei desempregado. Com certeza vou ter de cortar gastos. Em vez de comprar livros, vou pegar emprestado na biblioteca. Adeus jantares sofisticadose aulas de latin. E tem meu pai. Vou ter de dar menos dinheiro pra ele. Puxa, isso vai arrasá-lo. Vai ter de sentar no fundo na igreja, longe da padre e longe de Deus. Preciso sair dessa situação. Amanhã eu começo um regime.

Tenho minhas dúvidas se a dieta do alfabeto foi uma escolha inteligente. Nos primeiros três dias eu posso comer tudo que começa com a letra A. Nos três dias seguintes, tudo com a letra B e assim por diante. Tudo que perdi nas letras H e Q recuperei na M e na R. Quando chego na X, meus nervos estão em pandarecos e crio meu próprio alfabeto, com xis bacon, xis picanha e xis sagu com creme. Melhor não recomendar esta dieta a ninguém. Meu objetivo, de chegar ao outono com o peso ideal, não aconteceu.

Depois da dieta do alfabeto, tentei a da lua, a amarela, a dos pontos, a dos vinte sete dias e até uma dieta americana chamada Jackson, que você não come quase nada, só comida de criança.

No meu aniversário, ganhei um livro de filosofia oriental. Lá estava escrito que se o mundo gira, a melhor maneira de encontrar uma solução é ficando parado. Faço isso. Só que o campeonato nacional já começou, as rodadas avançam, ninguém me contrata, ninguém me telefona, ninguém gosta de gordo, ninguém gosta de mim. Resolvi ligar para um dirigente falando que eu estou dois quilos abaixo do peso ideal.

Mentira. Até engordei três, mas tento. Ele me disse que eu já tenho quase quarenta anos, que sempre fui um cara intelectual demais para um atleta e deveria aproveitar isso para pensar em outras coisas, como na morte, no significado da vida, a finitude das coisas, enfim, essas coisas que não vale a pena pensar.

Minha vontade é largar tudo. Ir embora desse país. Só não fiz isso porque nessa época os aeroportos estão entupidos de excursões para a Disney e me parece ridícula a idéia de afogar as mágoas com o Pateta.

Tive de passar por tudo isso até minha psicanalista explicar que há uma região não denominada do cérebro, porém situada em algum lugar entre o hipotálamo e o núcleo rubro que, mediante qualquer tipo de pressão ou obsessão, ao molho de frustração, regado a sentimento de culpa, dispersa uma enzima pelo corpo, neutralizando de forma inconsciente a queima de gordura. Excelente. Pago duzentos paus por sessão para me dizer isso depois de tudo que passei. Basta olhar na minha balança: em um ano eu perdi doze meses.

 Quinta-feira, Outubro 19, 2006

Oberdan, o zagueiro freudiano

Quando percebeu que o relógio marcava cinco minutos após o horário combinado, Dra. Lucy ergueu as sobrancelhas. Opa. Há oito anos que Oberdan, seu paciente das 14 horas de toda segunda-feira, fazia terapia e nunca se atrasara. Aí tem. Ela o via como um cliente ímpar. Onde já se viu? Um jogador de futebol em constante crise existencial. Somente no consultório da Dra. Lucy, mesmo.

Antes de sentar em sua poltrona, ela cumpriu o ritual de estalar todos os dedos. Acomodou-se confortavelmente sentando sobre perna direita dobrada. É assim que gosta de conversar. Enquanto checava as juntas dos dedos não estalados, imaginava qual seria a enxurrada de lamentos que o zagueiro despejaria hoje. Oberdan se acha o ser humano mais culpado que existe no mundo. Atribui a si todos os infortúnios daqueles que o cercam. Ele até sabe que não é o responsável por tudo que acontece, mas pensa como se fosse. Sente as dores do mundo. É mais cruel consigo mesmo do que com os outros. Não se dá o direito há nada que não seja responsabilidade, julgamento e castigo. Um caso clássico, o be-a-bá do Freud. Será que aquele suicida potencial fez alguma besteira para estar atrasado? Ele não faria nada sem consultá-la antes. Essa constatação acabou com qualquer ensaio de angústia dela. Mesmo assim, sentiu um misto de alívio e ansiedade quando viu a sombra de uma pessoa ao pé da porta. Só pode ser ele. O vulto, até então, ficou parado por dois minutos. Dra. Lucy aguardou inerte até que ele resolveu bater.

- Está aberta – ela falou com a falsa indiferença.

Com a mesma determinação que abriu a porta, Oberdan a fechou. Foi brusco até. Dra. Lucy ficou surpresa. Ele falou algum rosnado monossilábico que ela não compreendeu, mas imaginou algo que fosse sinônimo a um olá. Ela nunca o vira assim. Quase sempre tinha expressão confusa e deprimida, mas desta vez parecia petrificado. Não movia um músculo da face. Só a pálpebra tremia nervosa e independente. O olhar, sério e semicerrado, fitava os dois lados para não encará-la. A boca fechada quase fazia um biquinho e as bochechas que pareciam cheias de ar. Visivelmente tenso, andava feito um robô. Deu três passos pesados. O assoalho parecia afundar. Essa sensação parecia se multiplicar ao som da envergadura que o piso de madeira de prédio velho provocava. Enfim, acabou desmoronando aquele tamanho todo no divã da Dra. Lucy.

- E então? – ela perguntou com sua voz doce e sorriso interessado.

- Recebi uma proposta pra jogar num time do Catar. Sessenta e cinco mil dólares por mês – balbuciou a novidade com uma indiferença exemplar.

- Mas que ótimo, Oberdan! – ela vibrou com falsidade, afinal, ainda não compreendia onde ele queria chegar. - Pode ser a sua independência financeira, antes de encerrar a carreira, não?

- Não. Não aceitei. Não quero encerrar o tratamento nem quero trocar de analista. Por sua causa minha independência financeira se foi.

Dra. Lucy ergueu as sobrancelhas e estalou os dedos mais uma vez. Descruzou a perna sobre a qual estava sentada, levantou-se e serviu um chá para ambos. Respirou fundo, olhou para a foto de Freud na parede e disse:

- É, Oberdan, acho que estamos avançando.

Oberdan, o zagueiro que lê Schoppenhauer

Como a maioria dos zagueiros, Oberdan é tosco. Sempre foi. Hoje, veterano, ainda dá de bico na bola para onde apontar o nariz. Corre apenas o necessário. Sua às bicas. Na marcação não faz cerimônia, chuta o esôfago do atacante se julgar necessário, ou mesmo se der na telha. Ele odeia atacantes. Odeia até os seus atacantes. Aliás, ele odeia qualquer jogador de futebol. Na verdade, ele odeia futebol. Desde o dia que leu Ortega Y Gasset, ainda nas categorias de base. Como filósofo espanhol afirmava que o homem era ele e suas circustâncias, sendo estas irreversíveis e irremovíveis, viu-se condenado à bola. Tão condenado que, mesmo com todo ódio e 35 anos na cara, reluta em aposentar-se.

Se há uma coisa que faz Oberdan vibrar muito é uma noite bem dormida. Prender as pestanas lhe traz mais satisfação que marcar um gol de cabeça ou fazer um desarme a la Nilton Santos. Na noite véspera da semifinal do campeonato nacional, e, contrariando suas próprias estatísticas, ele estava vencendo a insônia. Mas não por muito tempo. Por volta da meia-noite um estalo lhe trouxe de volta à vida. Contudo, imaginou ainda estar sonhando. E o estalo se repetiu. Vinha da vidraça do seu quarto. Maior que sua frustração, só sua curiosidade, que fez erguer da cama aquele corpanzil truculento e caminhar em passos pesados até a janela. Abriu silenciosamente, afinal, alguém ali na concentração do clube deveria respeitar o sono dos outros.

- O que esses putos querem agora? – perguntou a si mesmo. Aliás, internamente, a palavra “eles” não existe no vocabulário de Oberdan. São todos “esses putos”. Da imprensa, da torcida, dirigentes, colegas, não importa. Nunca os chamou assim, mas sempre pensa neles desta maneira. Pelo menos não é nada pessoal. Mas neste caso, referia-se a Vantuir, o centroavante do time e um outro sujeito que estava junto, difícil de reconhecer no escuro, mas pelo porte parecia o lateral-esquerdo.

- Vamos junto ao Bar Acapulco? - convidou em surdina o atacante.

Oberdan nem se deu o trabalho de responder. Fechou a janela com o mesmo cuidado que abriu e voltou para cama, consciente de que aquele soninho gostoso já era. “Se ao menos esses putos lessem Emmanuel Kant, talvez não estivessem tão faceirinhos a solta” rosnou baixinho. A leitura era um hábito adquirido desde pequeno em virtude da insônia com quem convivia. E já que citou o filósofo alemão, resolveu pegar o “A crítica do juízo”, do mesmo autor, e sua mais recente leitura. O negócio agora é esperar pra ver quem chegaria primeiro naquela noite: o seu sono ou o seu centroavante.

Nos minutos que antecediam a partida, enquanto fardava-se, Oberdan lembrou do episódio da janela na noite anterior e começou a prever o fracasso. Quando não era o centroavante bêbado, era o goleiro num dia de azar, um árbitro incompetente e o campeonato ia pelos ares. Todos anos acontecia uma tragédia. Estava farto. Farto de trabalhar em equipe. Farto de suar um ano inteiro e ver o time afundar pela falha dos outros. Estava farto de estar farto. “Se ao menos esses putos lessem Schoppenhauer talvez tirassem esses sorrisos confiantes do rosto”.

- Vamos pra oração, rapaziada! - convocou Vantuir. Logo ele! - Se Deus quiser a gente vai ganhar esta parada. Ave Maria cheia de graça...

Deus? Então agora o nosso novo centroavante é Deus? O Vantuir encheu a cara a noite toda e o responsável pelos nossos gols é Deus? E mais, se Deus está jogando no nosso time, quem está jogando contra? “Ah, se esses putos ao menos lessem Nietsche talvez corressem um pouco mais em campo”.

Fim de jogo. Repórteres correm na direção de Oberdan quase enfiando o microfone entre os dentes.

- Mais uma derrota dentro de casa, Oberdan, o que dizer para essa torcida enfurecida numa hora dessas?

Oberdan olhou as arquibancadas antes de responder. Eles pulavam em cantoria que o fez lembrar os rituais de esquartejamento de bruxas da idade medieval.

- Se ao menos vocês lessem... ah, droga, deixa pra lá.

O Céu Sobre Mim

H. dobra os joelhos e cai com a cara no chão, esfolando a bochecha na calçada, esfacelando o nariz e trincando os dentes incisivos. A dor que lhe rasgara o peito é tão absurda que já não incomoda mais. Dizem que as dores insuportáveis são tão insuportáveis que desaparecem. Ainda assim ele encontra uma nesga de força para lançar o corpo pro lado e livrar o nariz para respirar, embora a dificuldade em puxar o ar se multiplicava a cada segundo. Num solavanco, jogou a cabeça para trás. Agora ele vê o mundo de cabeça para baixo. Mas decide fechar os olhos ao ver que o céu sangrava sobre ele.

Tinha trinta e dois anos, três meses e dezessete dias e doze horas e dezessete minutos. E durante todo esse tempo, H. levava uma vida de gestos milimetrados. Filho caçula, introvertido, nunca provocou dissabores à família. Concorde com os irmãos, solícito com os mais velhos. Católico Apostólico Romano. Tinha poucos amigos e nenhum inimigo. Nada de cigarro, nem bebida, nem gordura. Formado em economia, ganhava bom salário numa multinacional. Pelo menos o suficiente para garantir o conforto de Ana, sua esposa, e da pequena Maria Laura, sua filha de três anos, sete meses, oito dias, nove horas e catorze minutos. H. era um ser humano que as pessoas julgariam como exemplar. Todos errados, inclusive ele.

Podia ser terça ou sexta, aquele era mais um dia qualquer. Ao dar seu expediente por encerrado, H. foi caminhando até a padaria comprar o de sempre: um litro de leite, um pão de milho, cem gramas de presunto magro e cem de queijo colonial, o preferido de Ana, e um chocolate para sua princesinha. No entanto, seu itinerário foi interrompido em plena calçada por uma dor lancinante, inédita, e que lhe atravessara as costas e o peito com magnitude suficiente para fazê-lo perder por completo a coordenação motora.

Naquela fração de segundos em que seu corpo desmoronava, uma constatação: “Então isso é a morte? Assim, sem aviso prévio? Meu Deus, o que eu fiz da minha vida? Não estou velho, tenho uma saúde perfeita. Meus pais ainda vivem. Por quê?” Mas o tempo para as queixas já havia passado. E então se abriu a caixa de pandora das suas memórias através do discurso imperativo lhe disseram desde sempre: faça economia, você vai ser feliz. Case-se com Ana, você vai ser feliz. Tenha um filho, você vai ser feliz. Pague as contas em dia. Tenha um bom plano de saúde. Ame o próximo. Você vai ser feliz. H. acreditou. Fez tudo o que lhe disseram e ele não era feliz.

Quando H. abriu os olhos, ali estava o céu. Em vez de estrelas, viu arrependimento. Não o arrependimento cristão que garantiria a remissão dos seus pecados, mas o arrependimento da sua verdade. Ele não tinha trinta e dois anos de vida. Tinha trinta e dois anos, três meses e dezessete dias de espera por algo que nunca acontecera. A profissão nunca lhe deu prazer, tampouco orgulho. Nunca amou sua esposa. Não casou com Helena, seu grande amor adolescente subjugado por uma fase da vida onde a insegurança é transformada em ameaça. Não tornou-se um jogador de futebol profissional porque é vergonhoso para um filho da classe média em condições crescer através do estudo. Jamais cruzara a fronteira de seu país, embora dominasse os idiomas inglês, francês e espanhol. Reprimiu o sexo, desprezou o desejo, fez cara feia para a vontade própria e ergueu o braço para a felicidade em nome de uma covardia que, neste momento morria abraçada com ele. Garantias já não eram mais necessárias. Agora, desejava apenas uma chance para arriscar. Só mais uma. Uminha. Só que esta chance ele já teve.

Com os olhos selados de sangue, já não avista mais nada. Sente alguém se aproximar. Alguém que, com muito carinho, toma sua mão direita. A morte? Quis acreditar que fosse a mão de Helena. H. recebe um afago e faz um último pedido:

– Não solta da minha mão.

 Terça-feira, Outubro 17, 2006

Em 30 segundos

A primeira vez que a vi foi na entrada da cafeteria que fica ao lado esquerdo do cinema. Eu, bêbado de capuccinos, nem percebi minha audácia em querer atravessar ao mesmo tempo porta em que ela entrava. Esbarramos de maneira cinematográfica: só faltou uma câmera lenta e a película em preto e branco. Trombamos os ombros docemente, olhos se cruzaram e alguma melodia quase muda soava ao fundo. Gershwin. Até parecia um destes comerciais de cartão de crédito para grandes momentos da vida. Ela era interessantíssima. Tão linda que eu sentia minhas retinas sendo rasgadas pela sua beleza. Descrevê-la? Qualquer palavra que eu procure seria insuficiente. Ela não se resume em letras e conceitos. Ela era singular ou, simplesmente, a materialização em carne e osso de tudo aquilo que habitava os meus sonhos mais adolescentes em forma de mulher. A pele morena, o cabelo caído na diagonal da fronte tapando um pouco o olho negro e ao mesmo tempo cristalizado. Sabe aqueles olhos femininos que ficam transparentes quando cheios de lágrimas? Pois é, estes mesmos. E o sorriso cândido de menina era dialético com sua rebeldia de fêmea. Tudo em seu rosto era tão simétrico que ele facilmente se tornara a nova definição de "perfeição" em meu dicionário. Pra mim não havia mais dúvidas: ela era a resposta de Deus para Jó. Como se o Todo Poderoso admitisse, sim, fazer coisas horríveis. Mas também tinha o poder de criar uma mulher como aquela.

Assim como num destes comerciais de uísque sedutor, tomei um gole de coragem e desisti da sessão de cinema para a qual eu já havia comprado ingresso. Voltei para dentro da cafeteria decidido a encontrar o meu destino. Fui conversar com ela e meu espanto se multiplicou quando sua voz doce e poderosa disse ter me notado e que me aguardava. Meu coração tomou o elevador e foi parar na garganta latejando como um surdo de escola de samba que atravessa a avenida. Eu disse alguma gracinha e ela riu. Gaguejei e ela gostou. Aos poucos, fomos descobrindo nossas afinidades. Uma a uma. Isso nos tomaria horas, pois não eram poucas. Ela também gosta de Chico, de Woody Allen e de Brecht, de tomar sorvete no inverno, de dormir com a TV ligada, de ler dois ou três livros ao mesmo tempo. Descobrimos que tomamos banho juntos em Florianópolis dez anos atrás. No mesmo mar, no mesmo verão. Fizemos parte do mesmo coral no show do Los Hermanos e, embora odiemos política, votamos nos mesmos candidatos nas últimas quatro eleições. Nós fechávamos em tudo, como um daqueles comerciais de banco com atendimento personalizado.

O namoro era iminente e nossos cotidianos se confundiram num só em questão de pouco tempo. Estávamos juntos sempre, embora nem sempre fisicamente. Sim, por mais piegas, açucarado ou enjoativo que possa parecer, escolha a palavra que quiser, isso não nos incomodava. Pelo contrário, as coisas não tinham muita graça se eu não pudesse dividir com ela. Por isso resolvemos casar logo, menos de um ano depois de nos conhecermos. Não fizemos uma cerimônia tradicional, não teve vestido de noiva, nem noivo de pingüim. Mas teve lua-de-mel, assim que a gente juntou uma grana. Levamos uma vida simples e confortável. No início, não tínhamos luxo, mas nada nos faltava. Isso materialmente, porque no entre nós tudo era muito rico: amor, tesão, conversa, confiança, amizade, fidelidade. Até as poucas brigas foram boas, porque fazer as pazes era melhor ainda. Depois as coisas evoluíram, e muito. Comecei a escrever e produzir mais e mais e mais e mais. Com um pouco de dinheiro entrando, nossa vida virou um destes comerciais de margarina, com mesa farta no café da manhã, com direito a suco de laranja, flores na cabeceira, sol batendo no rosto e trilha sonora especialmente composta para gente. Eu estava cada vez melhor, tudo o que eu escrevia, todas obras que montei toda minha carreira dediquei a ela. Minha inspiração. Se eu tive um auge, ela sempre esteve acima de mim. Meu norte, meu sul, minha voz, minha inteligência, a mãe do meu filho, a parte boa do meu dia, a parte mais interessante do meu corpo e a razão pela qual eu acordava todas as manhãs com a idéia fixa de querer ser uma pessoa melhor.

Na vida dificilmente as coisas acontecem como a gente planeja e, um dia, a nossa história de amor sem fim acabou. Este dia foi o mesmo em que a vi pela primeira vez. A única vez. Depois que ela entrou naquela cafeteria, se esvaiu em meio às mesas lotadas, conversas estúpidas e até gargalhadas sádicas que habitam na minha mente até hoje. No tumulto, fui procurá-la, mas era tarde. Voltei todos os dias ao mesmo lugar, na mesma hora e em todas as outras horas diferentes que um relógio pode marcar. Perambulei as redondezas. E ainda perambulo, só que agora, sem em todas as direções, escarafunchando cada café, cinema, livraria, padaria, butique, danceteria, açougue, estádio, biblioteca, teatro, farmácia, boteco, bueiro, puteiro, igreja, convento, hospital, necrotério e cemitério, rua, avenida, esquina e beco, em baixo de pedra, em cima de árvore, dentro da moita. Qualquer porta onde eu possa entrar eu entro. Aquela vida que sonhei se desmanchou feito picolé no sol, em 30 segundos, como um comercial qualquer.


O Banho

Quando se tem uma vida tacanha como a minha, não é de se estranhar que a hora do banho acabe sendo a melhor parte do dia. Abro a torneira da água fria até completar uma volta inteira. A da água quente, um pouco menos da metade. Assim, tenho a temperatura e a pressão perfeitas para a prática do esporte.

Sempre tomo o mesmo banho. Começo ensaboando o pé direito e subo pela perna. Dou uma passada na região do pinto e vou pro abdome, peito, braço direito até chegar no rosto. Aí eu começo a descer: braço esquerdo, peito e abdome de novo antes das nádegas. Dou mais uma passada na região do pinto e desço pela perna esquerda até o pé. Por último, lavo os cabelos. Esta é a parte mais dramática. Basta olhar as mãos para ver que o tempo é inexorável. Não me refiro aos dedos murchos que lembram rugas, mas aos fios de cabelos se esvaindo como se fosse uma parte de nós. Por que os cabelos só caem na hora do banho? Imagino que o próprio seja o vilão da história, afinal, nunca vi um mendigo careca. Eles sempre ostentam uma vasta cabeleira. Se eu parar de tomar banho, talvez meu cabelo não caia mais.

Agora que a água já deve estar naquela temperatura perfeita, entro no chuveiro. Só tomo banho com sabonete novo. Eu li que, há muito tempo atrás, uns seiscentos anos antes de Cristo, os Fenícios inventaram o sabão. Mas foi só no século XIX que os primos Proctor e Gamble criaram o sabonete. Durante muitos anos, foi o único companheiro das chuveiradas e banheiradas. O mesmo sabonete que esfregava o corpo, esfregava o cabelo. Até aí, tudo bem. Até que um lindo dia do ano de 1890, um químico alemão, cujo nome eu não lembro, resolveu inventar o xampu. É estranho que, apesar do nome ter sido dado na Inglaterra e ter origem hindu, já que Champo significa massagear, amassar, ou coisa parecida, foi na Alemanha que ele surgiu. A lembrança mais antiga que tenho do xampu, ele era um líquido bem mais espesso que hoje. Uma calda grossa e esmeraldina, vendida em vidros. Com o reflexo da luz era muito bonito de se ver. Minha mãe sempre comprava no armazém do meu tio Nicanor. Mas eu dizia que assim as pessoas aderiram ao hábito de tomar banho esfregando o sabonete no corpo e o xampu na cabeça. Porém, existe uma ditadura comercial na nossa sociedade e, com o passar dos anos, ambos evoluíram. Fragrâncias diferentes, formatos, produtos específicos para determinado tipo de pele e de cabelo, uma verdadeira infinidade de possibilidades são empurrados goela à baixo até que lançaram um novo produto indispensável ao homem moderno: o condicionador. Lógico. Você não quer ter um cabelo bonito por muito mais tempo? Então, se você está por dentro do esquema, sabe que um bom banho, completo, como este que estou tomando, deve ter sabonete, xampu e condicionador. Além da água, óbvio.

Enquanto meu cérebro se preocupa com esta epopéia cosmética, acabo me distraindo e inverto a sacrossanta ordem. Passo o condicionador e depois o xampu. Quando volto à Terra, fecho as torneiras e seco-me apressado. Corro para o espelho apavorado com as conseqüências causadas pela minha violação de conduta. Muito estranho o que aconteceu com meu cabelo. Nada. Está impecável. Ou seja, não faz a menor diferença o que você usar no cabelo, contanto que se tome banho.


Publicado no livro: Contos de Oficina 33 - Editora Nova Prova (Set/2004)

 Quinta-feira, Setembro 21, 2006

Fragmentos Extraídos do Diário Secreto de Gabriel Daudt - 2

(1º de Fevereiro de 2004)

Pra mim, chega! Chega de enganar a mim mesmo. Não posso mais trabalhar em agências de publicidade. Ontem, a garota que trabalha no atendimento perguntou se eu sabia quanto custava uma passagem para o Chile. Ela disse estar interessada em fazer o tal caminho de Santiago. Indignado, o diretor de arte passou a morder o próprio cotovelo. Verissimo tinha razão: o mundo é um lugar legal, mas é meio mal freqüentado.

 Quarta-feira, Setembro 20, 2006

Bergman

Os opostos se atraem. Se esta frase batida cabia definitivamente para algum casal, era para este. Ela era artista plástica e ele, advogado. Ela era amante das artes, da poesia, de Dostoievski, de uma alimentação saudável e equilibrada e fazia “iôga” (sim, ela pronunciava com o “o” fechado, pra ser mais cabeça) duas vezes por semana. Ele, por sua vez, gostava do Schwarzenegger, de MacDonald’s e do Inter, óbvio. Tinham uma espécie de acordo. Um sábado, ela escolhia o programa que eles iriam fazer e no outro, ele. Este sábado, era o dela.

- Bergman é mesmo um gênio, não acha?
- Vamos colocar as coisas desta maneira: dá próxima vez que você quiser ir ao cinema, eu escolho o filme.
- Ele é tão intimista, angustiante. Ele sabe mesmo como provocar o público.
- Sem dúvida, ele sabe. Ainda mais cobrando ingresso.
- Deixa eu ver se entendi, você não gostou do filme?
- Não tem como gostar de um filme em que a câmera fica parada durante quinze minutos na cara do ator, completamente mudo. Aí, do nada, vem aquele som estridente assim "PÉIMMM". Coisa mais chata.
- Aquele som era de uma campainha de um cais de porto. Bergman provou que é possível identificar um lugar sem precisar mostrá-lo. É brilhante!
- Eu acho que ele botou essa campainha pra não deixar a gente dormir. Isso sim que é brilhante.

TRIIIIMMMMM

- Eu atendo.

Três minutos depois.

- Quem era?
- Ninguém.
- Como ninguém, Clarisse? Agora ninguém liga e você atende? Isso parece outro filme do Bergman.
- Tá bom, era a Margot. Ela disse que o pessoal vai se encontrar na casa do Fialho, pra tomar capuccino e recitar Neruda.
- E?
- E aí eu disse que a gente não ia.
- Você sabe que eu sou alérgico. Capuccino me faz tossir em italiano.
- Não precisa inventar estas coisas. Eu sei que você odeia os meus amigos.
- Clarisse, odiar é uma palavra muito forte.
- Tá bom, você não gosta deles.
- Não, eu odeio mesmo. Só que eu acho que nós também temos que ter vidas independentes. A gente não pode deixar de fazer aquilo que gosta por causa do outro.
- Mas você não suporta Bergman, cinema europeu. Ballet, então, nem se fala. E mesmo assim foi ver o filme comigo, eu pensei...
- Sim, mas não deve ser uma regra. O casamento não pode nos anular. Juntos temos que fazer mais e não menos, entende? E eu quero que você faça as coisas que tem vontade porque no domingo eu também quero ir ao Beira-Rio.
- Então você não se importa que eu vá?
- Claro que não.
- Jura?
- Aham.
- Posso ir?
- Claro.
- Mesmo?
- Vai!

Dez minutos depois ela surge bem vestida e sorridente.

- Volto à meia-noite. Te amo. Tchau - e sai.

- Mas não é que a vaca foi mesmo?

 Segunda-feira, Setembro 18, 2006

Um textículo de Natal

Dezembro de 82. Lembro porque foi o ano da Copa e porque foi o Natal em que ganhei o Falcon com olhos de águia. Um clássico.

Dias antes disso, minha mãe escolheu, como de costume, o dia mais quente do ano para comprar os presentes. Insuportáveis 38ºC davam um preview do inferno para nós, os tementes a Deus. Naquele tempo a maioria dos carros não tinha ar-condicionado. Mas isso pouco importava, porque a mãe não sabe dirigir até hoje. Então batíamos perna de loja em loja até que todos os nomes da lista fossem marcados com um ok. Aparentemente meu nome não estava na lista, porque não compramos o Falcon com olhos de águia naquela tarde. Aquele clássico, com a roupa toda preta e uma lista amarela nas mangas e nas calças. Mas compramos presentes pro pai, pro Dani, pro Diogo, pra Tata, pra Vó, pra Tia Esperança, mas pra Tia Lita e pra Fabi ainda não tínhamos comprado. Estávamos a caminho. A mãe carregava três sacolas numa mão, mais duas e eu na outra. Íamos na Renner. Foi quando aconteceu. Ela avistou um Papai Noel do outro lado da rua. Ele estava de costas tocando um sino. A mãe perguntou se eu queria ir até ele. Claro que não, mas antes mesmo que eu respondesse, ela largou as sacolas, ergueu o braço abanando:

- Olha o Papai Noel! Oiii Papai Noel!

O bom velhinho então virou para nós e, ao ver minha mãe acenando, levou a mão direita ao saco, que não era o de brinquedos, e balançou três vezes vociferando em voz grossa:

- Aqui pra ti, ó.

Não fizemos mais compras naquele dia. Não lembro quem comprou os presentes que faltavam. E, pra ser sincero, nem lembro quem me deu o Falcon com olhos de águia, o mais clássico de todos. Mas todo fim de ano eu lembro daquela tarde, daqueles 38ºC no termômetro e daquele Papai Noel magrinho, mirrado, com enormes rodelas molhadas embaixo dos braços, com a barba falsa grudada no rosto, balançando o saco e suando às bicas para garantir o Natal das crianças.



 Quinta-feira, Setembro 14, 2006

O Velho

Sala de aula da oficina de contos. Pra quem não sabe, vários computadores, um ao lado do outro formam uma grande letra “u”, visto de cima. Todos terminais ocupados e há o som nervoso e intermitente das teclas preenchendo o ambiente.

Na estação que fica bem ao fundo, no canto esquerdo, é onde estou sentado. Costas encurvadas, braços suspensos, cabeça baixa olhando diretamente para o teclado. Volta e meia eu parava, mexia o pescoço, estralava alguma coisa e massageava meus próprios ombros. E voltava a teclar usando apenas os dedos maiores de cada mão. No entanto, há vinte minutos martelava a mesma seqüência de palavras. Primeiro escrevia a palavra “oficina”, depois “letras” e, por último, dava uma porrada no “Enter”. Olhava para o monitor e a ação era refeita na mesma ordem. Na décima oitava tentativa o professor se aproxima. Ele pára ao meu lado e pergunta se estou tendo problemas. Sem olhar para o mestre, largo um pois-é meio vago e, naquele momento, pareceu-me interessante apresentar a seqüência da minha ação pela décima nona vez. O professor em surdina, praticamente não move os lábios no julgamento:

– É a senha de novo. – Questiona-me se a digitação estava correta, com todas as letras escritas em caixas baixas. O pois-é meio vago agora é dele, que então por si fez a vigésima tentativa. Em vão. O computador continua solicitando a senha correta. O mestre ergue as sobrancelhas e coça o cavanhaque:

– É, vamos ter que chamar o velho.

Minha ação imediata é espontânea: virar os olhos e bufar em lasso. Pego a pasta que estava ao lado do computador e vasculho objetos. Pego uma caneta e um caderno surrado com pontas dobradas. Enquanto ajeito o meu material, o professor dá as costas caminha até sua mesa. Em pé, pega o telefone e digita apenas três números. Aguarda alguns segundos diz apenas uma frase seca:

– Velho, precisamos de você.

O que me resta? Abro o caderno numa página em branco qualquer. Sobre a mesa, pioro ainda mais a minha postura. Começo a escrever com velocidade.

Cinco minutos depois, a porta se abre escancarada pelo vento. O som dos teclados dá lugar ao sopro do zéfiro. Eis que surge um homem. Sua aparência é mais que centenária. Beira o cadavérico. A pele é enrugada e áspera tem tons amarelados. As vestes, antigas e esfarrapadas. Os cabelos, num branco total, são compridos e quase atingem sua cintura. Assim como a barba, igualmente branca e com fios tão longos que chegam a encostar na barriga. Claudicante, o velho anda apoiado numa bengala.

Na sua chegada, ergui-me num susto de derrubar cadernos, caneta e idéias por tudo que é lado. O professor pula, também. Não com o velho, mas com minha reação repentina. Os demais, calados, assistem a tudo.

Distanciados por poucos metros, o velho e eu nos encaramos. Arrepiados, esprememos os olhos em profunda análise de semblantes. Balançamos a cabeça para o mesmo lado, como o reflexode um espelho. Por alguns segundos estamos petrificados. Com passos lentos, ele vem na minha direção. E então o velho enche os olhos d’água, segura o meu rosto com as duas mãos e com a voz embargada pergunta:

– Gabriel?

– Karl Marx?



Nota: Meu mestre Assis Brasil diz que o velho misterioso, apesar de ser um clichê, é um recurso que, mais cedo ou mais tarde, todo autor acaba usando. No meu caso, mais cedo. Assim me livro desse compromisso.

 Quarta-feira, Setembro 13, 2006

Um Aperitivo

Tão difícil quanto trabalhar numa agência de propaganda é tentar explicar o seu dia-a-dia para forasteiros. Não vejo melhor maneira de fazer isso do que comparando com o funcionamento de outros segmentos. Aí a coisa fica mais simples, pois uma agência de propaganda é muito parecida com um restaurante. Um restaurante sem cardápio, embora o Planejamento é quem deveria elaborá-lo. A cozinha é a criação. O atendimento é o garçom. Produção busca os ingredientes, a mídia preenche a comanda e o cliente é o cliente.

Então a coisa funciona mais ou menos assim: o atendimento, ou melhor, o garçom entra na cozinha desesperado. Muitas vezes ele até lembra o Humphrey, aquele urso do Disney que andava em círculos quando nervoso. Recompõe-se e larga o briefing:

- Olha, o cliente está com fome. Ele quer comer. Pensei em fazer um prato gostoso, que mate a fome da pessoa, compreende?

- Sim, mas ele tem fome de que? – pergunta o redator, digo, um dos cozinheiros - Um almoço, um lanche? Sabe qual o tamanho da fome dele?

- Ah, pois é, isso eu não perguntei. Mas ele está com pressa. Então, vá fazendo um feijão com arroz aí para a gente não perder tempo enquanto eu vou lá perguntar pra ele.

- Não é melhor fazer um A La Minuta ? – questiona o diretor de arte, ou melhor, o outro cozinheiro - É um prato mais fácil de ser aprovado.

- Pode ser, mas façam logo porque ele quer na mesa no máximo em 15 minutos.
Rapidamente começam a bater o bife e descascar as batatas. Quando elas são mergulhadas no óleo quente, entra o garçom:

- Ele disse que quer um prato sofisticado. E disse também que não gosta de cebola e nem de pimentão.

- Ele só disse o que não gosta?

Enquanto o A La Minuta vai pro lixo, o garçom vai perguntar de novo. E quando volta, diz que o cliente quer comer um Filé de Peixe ao Molho Termidor. Mas que diabos é Molho Termidor?

- Não sei – diz o garçom – mas já disse pra ele que a gente fazia, que a gente tinha experiência nisso. Deve ser fácil, procurem na internet.

Dá-se um jeito. Descobre-se uma receita chamada Termidor, que leva camarão e outros ingredientes exóticos e um longo tempo de cozimento. Ninguém tem muita certeza de que isso seja mesmo um Molho Termidor, mas quem tem?

Três horas horas depois do cliente entrar no restaurante, o prato é servido à mesa com batatas suíças para acompanhar. E em menos de cinco minutos o garçom está de volta.

- O cliente amou tudo. Disse que o cheirinho estava ótimo e adorou a idéia de colocarmos camarão no molho. Sugeriu até que acompanhasse um tal de vinho carmenère. Só que ele achou muito caro, ele não vai pagar tudo isso, que só quer matar a fome. Ele só tem grana para uma pizza média sem borda.

Já que o cliente disse que gosta de frutos do mar, segurando o choro, os cozinheiros questionam se a pizza pode ser de camarão.

- Vocês querem falir o meu cliente? Sejam criativos. Coloquem outro sabor, mas que tenha o gostinho do camarão. Mas camarão, não.

Então é feita uma pizza maluca. O cliente come, mas reclama.


Fragmentos Extraídos do Diário Secreto de Gabriel Daudt

(26 de Janeiro de 2004)

Na última noite eu tive mais um daqueles pesadelos horríveis. Sonhei que estava sentado na poltrona de um avião da Aerolineas Argentinas. Como se isso não bastasse, ele estava prestes a se espatifar no chão. Mas isso não era o pior. Ao meu lado estava o Papa e ao lado dele, o Lúcio, zagueiro. Eles tinham provas contundentes que eu tinha assassinado o Kennedy. Acordo suado. E depois dizem que 37 não é febre.

 Terça-feira, Setembro 12, 2006

1986

Frustração é a pequena diferença que existe entre a expectativa e a realidade. 1986 tinha tudo para ser um grande ano. Todos estavam prestes a ver o cometa Halley rasgar os céus em noites iluminadas de lua cheia. O Brasil estava preste a sair da crise com uma nova moeda, forte e planejada, o Cruzado. A Seleção, preste a ganhar a Copa do Mundo no México, já que o Zico estava recuperado da lesão. E eu estava preste a conquistar minha primeira namorada.

Deve existir um garoto como eu em cada escola deste país. Sou aquele carrega a árdua missão de ser o aluno com a menor estatura da classe. Menor até que as meninas. Nada pode ser pior que isso. Aliás, é difícil entender por que a natureza faz com que as mulheres cresçam mais rápido que os homens logo na época mais frágil da vida masculina: a pré-adolescência. Sempre foi assim. Ou quase sempre, na sétima série surgiu uma menina um centímetro menor que eu. Seu nome era Taís. Nem é preciso dizer que, mesmo ela sendo uma gracinha, exalando o suave perfume do xampu ao mexer os cabelos, a sua altura era o atributo que eu precisava para me apaixonar.

Naquele dia, ainda faltavam trinta minutos para terminar a aula e recebi um bilhete da Taís. Com sua caligrafia doce de letras arredondadas, ela pergunta por carona para ir embora. Como tenho apenas treze anos e nenhum carro, parece óbvio que ela quer companhia para ir pra casa. Abaixo da assinatura, um P.S. proclamava o amor: "quero te fazer uma pergunta particular". Fim de papo, meu cérebro dá adeus ao restante da aula de biologia. Também, quando o tema é a função da mitocôndria, é fácil dispensar. Procuro uma bala na mochila, afinal, pode rolar beijo na boca e ninguém quer estragar tudo com um mau hálito. Achei uma "azedinha" tão melada que gruda nos dedos e no caderno. Na hora do desespero, vai tu mesmo. Fico o resto do tempo olhando para as paredes centenárias daquela sala de aula. A pintura descascada revela que ela já foi rosa-bebê e amarelo-bebê, antes de ser o atual verde-bebê. O pé-direito tem mais de quatro metros e o assoalho geme quando alguém caminha. As carteiras também são velhas, mas reformadas todo o final de ano. A estética dos colégios de freiras não motiva ninguém a estudar, mesmo. O que motiva são garotas como Taís. Enfim, toca a campainha estridente que, além de esfrangalhar os tímpanos, decreta o fim da aula. Pandemônio. Adolescentes ensandecidos voam escada a baixo como se o mundo fosse acabar. Até que, enfim, lá fora, nos encontramos para traçar nossos destinos.

Não é difícil imaginar o que aconteceu. O cometa Halley passou tão longe que ninguém sabe se o viu. O Brasil faliu junto com o Cruzado. Zico perdeu o pênalti contra a França. E eu fui o encarregado de perguntar ao Diógenes, meu melhor amigo, se ele sabia quem o ama em segredo.
O que deveria ser ensinado nos colégios é que, na vida, em raras oportunidades as coisas acontecem como as pessoas imaginam, e não a função da mitocôndria que, convenhamos, não tem a menor importância.




Publicado no livro: Contos de Oficina 33 - Editora Nova Prova (Set/2004)

 Segunda-feira, Setembro 11, 2006

A Alvorada do Homem

De uma forma ou de outra, todo mundo já passou por isso.
Quando dou por mim, tudo o que sei é que é preciso correr. Sempre em frente. Rápido. Não importa o porquê, mas é preciso correr. Alguém grita que é pra não parar. Vai. Na hora certa, todo mundo sabe o que fazer. Vamos pelo túnel. Acho que estou liderando. Quantos? Milhares, talvez milhões. Não pára. Engraçado, todos se parecem comigo. É como se eu fosse todos eles e todos fossem eu. Chega de perguntas. Cala a boca e corre. Só um pode ganhar. Só um pode passar para a próxima fase. Quem está me dizendo isso? De onde vem essa explicação que antes não existia? Instinto. Não sei, só sei que não tenho de pensar, tenho de correr. Até ela. E aí está. Ela. A grande esfera. Majestosa. Magnânima. Uau, é como estar diante de deus. Será que isto é deus? Alguém com uma estampa igual à minha se aproxima:
- Você vai mesmo entrar aí?
Coço o queixo, balanço a minha cauda. Eu queria uma resposta e não mais uma pergunta. Digo que não decidi ainda. Ele tem cara de saber mais que eu. Ou quer me intimidar:
- Vê lá, heim, as conseqüências são irreversíveis.
Fui. Droga. É isso que dá a gente querer ser o primeiro em tudo.



Publicado no livro: Contos de Oficina 33 – Editora Nova Prova (Set/2004)